Homilia - 19/11/2017 - XXXII Domingo do Tempo Comum

Novembro! Neste mês, sentimo-nos diferentes. No início do ano, de janeiro a março, tudo está começando e, em novembro e dezembro, tudo está terminando. Os textos da liturgia deste mês nos fazem refletir sobre o fim da nossa vida. Assim como nos damos conta de que o fim do ano de 2017 já está chegando e que é hora dos últimos encaminhamentos, assim também nossa vida vai passando.

A vida é valiosa demais. Por isso, o tempo é valioso. Não podemos permitir que o tempo passe e a vida não seja bem vivida.

Mas o que é viver? Para viver, certamente, não basta estar vivo. Quando ouvimos alguém dizer: “Isso que é vida!”; ou “Isso não é vida!”; ou, ainda, “Essa vida não me serve!”, e outras expressões semelhantes, percebemos que existem diversas opiniões sobre a vida. Não basta apenas viver, queremos viver bem!

Somos administradores, gestores da nossa vida. Que bom seria se no dia do juízo ouvíssemos o Senhor da Vida dizer: “Muito bem, servo bom e fiel! Como foste fiel na administração de tão pouco,

eu te confiarei muito mais. Vem participar da minha alegria!".

A primeira leitura canta os méritos da dona-de-casa e suas qualidades. Ela é trabalhadora, interessa-se pelos pobres, é inteligente para negociar e dirigir sua casa, fala com sabedoria, entrega-se totalmente ao esposo e aos filhos. Sem dúvida, é o relato de uma mulher que viveu dentro de um contexto social da época caracterizado por uma mentalidade patriarcal, que supõe que cuidar da casa é exclusividade da mulher. Hoje, escreveríamos algo um pouco diferente sobre a família: incluiríamos partilha de tarefas domesticas entre o casal, participação de ambos nos problemas da comunidade, filhos e filhas assumindo também sua parte. Mas o princípio básico é o mesmo: quem cuida bem dos outros, seja homem ou mulher, chama felicidade e alegria para dentro de sua própria vida. Tudo que fazemos para os outros no lugar onde vivemos, seja na família, no trabalho ou outro lugar, volta para nós em forma de harmonia e crescimento humano. Em outras palavras: vale a pena cuidar bem das pessoas que dividem conosco um mesmo espaço.

Para Paulo, na segunda leitura, os tessalonicenses não descobriram ainda essa sabedoria, a prática da justiça que dá sentido à vida nem o que significa ser vigilante e esperar ativamente a volta do Senhor. Estão dormindo o sono da acomodação, vivendo de discussões intermináveis e de teorias, sem se preocupar em fazer uma mudança do seu jeito de viver o Evangelho. Querem manter sua segurança, as ideias passadas, sem se arriscar no novo proposto pelo Senhor ressuscitado.

O evangelho nos relata a conhecida parábola dos talentos. Começa com uma distribuição desigual: um ganha cinco, outro ganha dois, outro ganha um. O patrão da parábola não espera o mesmo rendimento de quem recebeu cinco ou dois talentos. Quando mostraram o rendimento os dois receberam o mesmo elogio. Cada um foi até onde podia ir com o que tinha... e não se exige mais.

Vivemos num mundo competitivo, onde cada um exibe, com muito orgulho, os resultados do sucesso. Acontece que mérito não é a mesma coisa que resultado. Uma pessoa tímida, que conseguiu dizer duas frases, pode ter crescido mais neste esforço do que um desinibido de palavra fácil quando faz um belo discurso.

No fundo, só Deus pode avaliar nossos méritos, porque só ele conhece nossas possibilidades e as barreiras que cada um tem que vencer para realizar alguma coisa.

O servo que recebeu um talento representa quem tem medo de investir na própria vida. Faz parte da turma do “não me envolvo”, “não me comprometo”, “não estou a fim de participar”. É uma turma que guarda o que não pode ficar guardado: a vida.

Todos nós recebemos dons e talentos de Deus. Ninguém pode dizer que não recebeu nada. Algumas pessoas talvez receberam mais do que outras, mas cada uma recebeu sua parte com a qual deve trabalhar. Trabalhar com os dons não deve ser coisa pesada, mas gratificante. Olhemos as pessoas quando têm um certo dom para algo, trabalham com alegria e procuram desenvolver tal dom. O que é para um uma alegria, para outro é pesado. Podemos observar os dons que nós temos, como é bom trabalhar com eles, fazer os outros felizes com isso. E como é difícil fazer certas coisas para as quais não se tem jeito.

É tão importante que cada um conheça os seus dons, os desenvolva, os faça “render” e saiba trabalhar com eles. O trabalho deixa de ser pesado, mas se torna auto-realização. O que se observa, porém, é que muitos procuram desenvolver seus dons somente para o próprio proveito. A grande pergunta não é: como posso ajudar meus irmãos?, mas: como posso ganhar o máximo de dinheiro? Qual a profissão que vai render mais?

É importante que os pais ajudem seus filhos a descobrirem e desenvolverem seus talentos, e devem também alertar seus filhos que não é o dinheiro o mais importante, mas o serviço aos irmãos, à comunidade, à sociedade.

Quem quiser sempre ter certeza do resultado para tentar alguma coisa vai ter muito pouco resultado. O nosso dar abre as mãos dos outros e as de Deus. “É dando que se recebe!”.

O final da parábola pode parecer estranho: “A quem já tem mais será dado; a quem não tem até aquele pouco que tem lhe será tirado”. Isso não é uma ameaça de Deus, um castigo. É uma constatação de como de fato funciona a vida. Quem está interessado em crescer, e para isso se esforça, cresce sempre mais. Isso acontece na competência profissional, nas relações afetivas, na vida religiosa...

Certa vez, alguém perguntou a uma grande cientista (Thomas Edson) qual era o sucesso e a grandiosidade de suas descobertas. Ele respondeu: é 10% de inspiração e 90% de transpiração (= suor, trabalho, esforço).  E, como o sucesso é muito motivador, quem vê seu esforço dar frutos se esforça mais e não para de crescer.

O contrário também é verdade: quem tem pena de se esforçar fica parado no mesmo nível, vai descendo, andando para trás. Amor que não cresce vai diminuindo, secando.

Deus quer nos dar sempre mais, torce pelo nosso sucesso em todas as áreas. Para isso ele nos deu a vida e os dons. Só não podemos esperar que Ele nos fique empurrando quando insistimos em pisar no freio.

Pode ser que, no fim, as recompensas não sejam conforme se pensava. Um varredor de rua pode ser mais importante para Deus do que Dr. Fulano de Tal. Porque Jesus tem medidas diferentes. Afinal, o pai dele não era doutor da Lei, apenas carpinteiro.

Em Roma, sobre o túmulo de Pedro ergue-se uma basílica. Era pescador do mar da Galileia.

Será que já tenho algum capitalzinho no Banco da eternidade?

 

 

Frei Gunther Max Walzer