Homilia - 26/11/2017 - Solenidade Jesus Cristo Rei do Universo

Este domingo é o último domingo do ano litúrgico e, hoje, celebramos a solenidade do Senhor Jesus como Rei do Universo. Fim do ano litúrgico! Como foi nosso ano? Bom? Ruim? No mundo, mede-se o sucesso pelo crescimento econômico: o PIB cresceu, as exportações, a colheita, a abertura de mais uma filial, a troca de carro... os critérios de Deus são diferentes, porque ele é um rei diferente.

Assistimos a tantos processos de corrupção, à nossa volta ainda há famintos, nus, doentes e presos desatendidos em seu sofrimento.

Na primeira leitura, o profeta Ezequiel nos fala de Deus como pastor, nos diz que ele cuida de cada ovelha individualmente. É um pastor que procura a ovelha que se perde, enfaixa a que está ferida, traz de volta a que se desgarrou, fortalece a que está doente.

A parábola de Ezequiel é uma metáfora da situação do povo e da sociedade de Israel no período do exilio da Babilônia: autoridades que só pensavam em si e exploravam o povo abandonando0 à sua própria sorte, criaram as condições para que esse povo fosse desintegrado, dominado e exilado pelo imperialismo babilônico. Aí o profeta anima o povo apresentando-lhe um Deus que cuida dele, que não o abandona. Ele vai restaurar seu povo, na liberdade e na paz, na prosperidade e no amor.

Para nós cristãos, esse sonho se chama “Reino de Deus” e começou a tornar-se realidade com Jesus Cristo. Ele veio inaugurar esse caminho da vitória do bem. A história não parece ir sempre nessa direção. No texto da Carta aos Coríntio, Paulo diz que as forças da morte são obra humana. Usa para isso uma linguagem simbólica. Diz: em Adão (que representa toda a obra humana) todos morreram. São obras humanas que favorecem a morte: as guerras, desigualdades, injustiças, a corrupção que que rouba os direitos do povo, o rancor que faz um querer o mal do outro e multiplica a violência, o abandono dos doentes... Todos nós conhecemos o poder dessas forças da morte, vemos esse poder em ação todos os dias. Ter fé na ressurreição não é apenas confiar que seremos felizes depois da morte. É crer que Deus é mais forte que as escolhas erradas que a humanidade faz e que há um jeito de melhorar esse mundo colocando os valores do evangelho.

O Evangelho de hoje nos fala da segunda vinda de Cristo para o juízo final.

Embora o Evangelho se refira ao julgamento universal, não devemos esquecer que cada um de nós terá um julgamento pessoal. Ninguém consegue escapar dele. Ninguém de nós precisa entregar o passaporte para não poder fugir, nem a Interpol vai precisar nos procurar.

Quando lemos a parábola do juízo final, logo nos perguntamos “quem vai se salvar?”. Encontramos, no evangelho, uma pergunta importante: Quando foi, Senhor, que te socorremos (ou não) nessas situações difíceis?

Jesus nos mostra no Evangelho que a salvação não depende do número de missas, retiros ou procissões que frequentamos. O Senhor não nos perguntará no dia do julgamento final se procuramos cumprir os preceitos religiosos, mas sim se fomos capazes de viver concretamente o amor.

Não podemos comparar ou confundir este julgamento com um tribunal onde são julgadas as pessoas, mas o “Tribunal de Cristo” é um julgamento das obras relacionadas com Cristo que “está no meio de nós”.

Surge, então, o fator surpresa e perguntaremos: “Quando foi que te vimos?”.

Na resposta de Jesus, notável é o que ele enfatizou ou deixou de enfatizar. Jesus não deu como critério do julgamento a igreja que as pessoas frequentavam.

Ele não menciona pontos de doutrina, nem fala da fidelidade no cumprimento de leis ou mandamentos. Jesus colocou como critério algo que está ao alcance de todos nós: - Como você tratou seu próximo quando precisava de você.

Jesus desprezou a importância da doutrina ou da Escritura? – Não!

Jesus eliminou os sacramentos ou o arrependimento dos pecados? – Não!

Mas Jesus deu um alerta para os discípulos. A gente pode ter feito e observado tudo isso e ainda estar longe de Jesus.

O que Jesus disse ao grupo das pessoas condenadas?

“Eu estava perto de você, mas você não quis se aproximar”.

“Eu estava perto de você, mas você fugiu de mim”.

“Eu clamei e você fez de conta que não ouviu”.

“Eu precisava de ajuda e você deu as costas”.

Alguém escreveu:

Eu estava faminto - e você formou um grupo para discutir a causa da fome.

Eu fiquei preso – e você se retirou para a capela e orou por minha libertação.

Eu estava nu – e você debateu a moralidade da minha aparência.

Eu estava doente – e você se ajoelhou e agradeceu a Deus pela sua saúde.

Você parece estar tão perto de Deus; - mas eu ainda estou com muita fome, sozinho e abandonado.

Aquilo que, às vezes, a gente valoriza tanto, a doutrina certa, a liturgia bonita, a prática certa, etc...  Jesus não tocou em nada disso na sua fala sobre o juízo final.

O que é difícil, às vezes, são as coisas do dia a dia. O que a gente faz fora da reunião da igreja. São as coisas que acontecem em casa, na rua, no trabalho que, muitas vezes, revelam a presença de Jesus e suas necessidades.

O que chamou minha atenção nesta passagem do Evangelho foi justamente o fato que ninguém reconheceu Jesus no meio da multidão.

Ninguém viu Jesus no rosto do morador de rua, do estrangeiro, do desabrigado, do doente, do preso.

Ninguém viu Jesus.

Mas, ele estava lá.

“Ele está no meio de nós”.

Ajudando o homem com fome, a família desabrigada, o homem preso, é como se a gente estivesse ajudando Jesus.

É lá que Jesus está.

Você pode não convidar uma destas pessoas para jantar em sua casa. Mas com um quilo de arroz e feijão você pode assegurar que Jesus terá a sua janta hoje.

Com um cobertor ou uma camisa e calça que você não usa mais você pode vestir o próprio Rei.

Com uma visita ao hospital você pode garantir que o Senhor se sinta amado esta semana.

Quantas pessoas ao nosso redor precisam de ajuda. Se temos olhos para ver, lá está Jesus.

O problema nosso não é o de não ver, mas o de reconhecer.

A coisa mais difícil é enxergar Jesus.

Ele está aqui.

Mas, nós não o vemos.

É difícil mesmo reconhecer Jesus numa pessoa suja, doente ou num mendigo.

Sim, os pobres e excluídos, os doentes ou com deficiência não agradam a nossa vista. Estas pessoas nos incomodam.

É por isso que é difícil reconhecer Jesus que “está no meio de nós”.

Este é o nosso Rei, um rei que pede esmola. Que tipo de esmola? Algumas moedinhas que nos estão incomodando em nossa carteira? - Não!

“O faminto está aí, na esquina da rua, e pede um documento de identidade em sua condição, pede receber uma alimentação de base saudável. Pede-nos dignidade, não esmola” (Papa Francisco, 2ª.Confer.Intern.Nutrição,Roma 2014).

Este é o Reino de Deus que queremos construir, aclamando Cristo Rei do Universo.

 

Frei Gunther Max Walzer