Homilia - 14/01/2018 - Segundo Domingo do Tempo Comum

Há um ditado popular que diz: “Quem procura acha”. É muito importante essa atitude de busca na vida de todos nós. A vida é uma contínua busca. Quando desistimos de buscar, morremos. Os filósofos buscam o sentido da vida; há quem busque fórmulas quase mágicas de felicidade, e aí as pessoas podem se tornar excessivamente crédulas e correr atrás de caminhos que iludem. Homens e mulheres buscam quem os complete na vida. O relacionamento humano é marcado por constantes buscas. Buscas nos conduzem a encontros e desencontros. É na busca de valores e modelos que os jovens vão construindo a sua personalidade; na verdade, fazemos isso durante a vida inteira, mas é um processo que se torna bem mais visível nessa fase da vida. Podemos relacionar uma serie de buscas que caracterizam nossa sociedade: busca de emprego, de moradia, do pão de cada dia, de segurança, de paz.

No evangelho de hoje, João Batista identifica Jesus e o apresenta: “Este é o Cordeiro de Deus”, uma pessoa importante, especial, o próprio Deus-conosco. Os dois discípulos de João ouviram essa proclamação e, imediatamente, seguem Jesus. Jesus percebe que os discípulos estão buscando algo e lhes pergunta: “O que vocês estão procurando?”

É uma cena importante, porque são as primeiras palavras de Jesus, no Evangelho de João.

Eles quiseram conhecer Jesus e por isso perguntaram: “onde é que o senhor mora?”.

A resposta de Jesus foi bem prática: — Venham ver! — disse Jesus. Então eles foram, viram onde Jesus estava morando e ficaram com ele o resto daquele dia.

Percebemos que, atrás dessas palavras, está um convite de grande importância. São mais ou menos quatro horas da tarde, recorda João com precisão, e os dois acompanham o Mestre, conversando com ele até altas horas da noite. No dia seguinte, os dois levam outros dois: João leva seu irmão Tiago; e André leva seu irmão Pedro.

Qual deve ter sido a conversa de Jesus com seus futuros apóstolos? João guarda o silêncio e nunca contou algo a respeito.

Assim nasceu a vocação dos primeiros discípulos. O evangelho ilustra bem o caminho de desenvolvimento da vocação de cada um na adesão ao projeto de Deus: buscar, seguir, permanecer com Jesus.

Primeiro os discípulos vão buscar saber algo sobre Jesus, perguntam. Deus não se revela a quem não tem perguntas, a quem não se interessa em buscar um sentido, um projeto de vida. Às vez as perguntas são inquietações diante da própria vida: por que a vida é assim? Como podemos vencer nossos medos e angústias? O que fazer diante de uma injustiça? Para que, afinal, existimos? Tudo isso é sinal de busca.

O segundo passo é seguir o caminho encontrado. Seguir Jesus implica em conhecê-lo melhor, agir de acordo com os critérios do evangelho, ter atitudes coerentes com o sentido do projeto de vida que Jesus oferece.

Por fim, é preciso permanecer no caminho, não ser “fogo de palha”, manter-se firme quando as inevitáveis dificuldades aparecem. Esse “permanecer” não significa ficar estacionado numa rotina num determinado comportamento, mas significa evolução, crescimento, transformação pessoal.

As palavras de Jesus — Venham ver- continuam nos desafiando. Onde, Rabi, em dias turbulentos como os nossos, podemos te encontrar? Onde moras neste mundo de conflitos? Será que ainda te encontraremos em tua casa? Precisamos escutar tua voz nos convidando novamente: “Venham ver!”.

Não podemos dizer que esta voz se calou... mas onde a escutamos, onde a identificamos? Enquanto judeus e palestinos muçulmanos brigam por uma faixa de terra e pela cidade de Jerusalém, e tantas vidas inocentes são ceifadas em guerras no mundo inteiro, precisamos ter a coragem de nos perguntar onde está o Mestre, onde Ele nos espera, o que Ele nos chama a assumir a partir do encontro com Ele...

Hoje, o Senhor nos convida novamente: “Venham, e vocês verão!”. Em meio aos conflitos e problemas pessoais, desejos e sonhos das pessoas com quem convivemos, em meio às noticias negativas que chegam aos nossos ouvidos, em meio à realidade contrastante que nos deixa muitas vezes perplexos, Cristo está nos chamando a ir e ver sua casa, seu rosto, suas escolhas, seus valores, sua vida.

Nesta celebração de hoje, abramos o nosso ouvido e assim vamos ouvir Cristo, chamando a cada um de nós pelo nome. Tenhamos a coragem de seguir o chamado dele e, com certeza, ele nos vai dar uma resposta aos nossos anseios e desejos mais profundos.

Assim, também, contagiados pela presença de Cristo, sejamos uns para os outros sua morada, sua presença, em nossas palavras, valores, escolhas, atitudes...

Peçamos como o salmista, que Deus abra nossos ouvidos e nos ensine como ouvir sua Palavra em todos os momentos de nossa vida.

 

Frei Gunther Max Walzer