Homilia - 14/07/2019 - XV Domingo Comum

Muitos de nós fariam muito mais na vida se não inventassem tantas desculpas quando em determinados momentos tomassem uma atitude ou uma decisão. Somos mestres em inventar desculpas ou em dizer: “Um dia, quando puder vou fazer... Hoje ainda não estou preparado em fazer tal coisa... Eu tinha muita vontade em ajudar, mas me falta oportunidade... Quando eu tiver tempo, vou fazer... Me falta tempo...”  É evidente que sabemos muito bem o que deveríamos fazer, mas sempre achamos que ainda não é o momento. E, com isso, o tempo e as oportunidades vão passando. O bem que deveríamos fazer não é feito, a grande realização da nossa vida não acontece, e, aos poucos, a mesmice vai se instalando na nossa vida.

Como seria diferente o nosso mundo se os bons tivessem um pouco mais de garra, um pouco mais pulso para fazer o que sabem que deveriam fazer e não o fazem.

Será que Deus pede o que não podemos fazer?

Na primeira leitura de hoje, o Deuteronômio nos diz: “Esta palavra está bem ao teu alcance, está na tua boca e no teu coração, para que as possas cumprir” (Dt 30,14).

O que falta então? Talvez falte o mesmo que dizemos que falta quando o governo não faz o que deve: falta vontade política, vontade de mexer nas nossas prioridades, de perguntar a nós mesmos o que de fato consideramos fundamental na vida. Não está faltando “vontade política” de mudar nossas vidas?

Lemos no Evangelho a pergunta do doutor da Lei: “Mestre, o que devo fazer para receber em herança a vida eterna?” Não é para ficar irritado com uma pergunta dessa? Um doutor fazer uma pergunta dessa? Claro, que ele sabe muito bem a resposta!

Qualquer criança na catequese responderia corretamente esta pergunta. “Amar a Deus e amar o próximo como a si mesmo”. E Jesus reconhece que está certo: nota 10 para o doutor da Lei! Mas alguma coisa está errada. Saber a resposta não basta. Ou talvez seja pior: saber a resposta e não fazer. Nós, também, decoramos as respostas quando nos preparávamos para a primeira comunhão. Jesus diz: “Faze isso e viverás”.

O doutor da Lei quer levar a conversa para o campo teórico e pergunta: “Quem é o meu próximo?”. Ou seja: “Quem eu devo amar e quem eu posso fazer de conta que não vi?”.

A palavra “próximo” não é um termo genérico. Jesus, dando uma resposta à pergunta: “Quem é o meu próximo?”, fala de uma situação bem concreta fazendo referência ao levita, ao sacerdote e ao samaritano. Não explica quem é o homem caído: é qualquer um.

O próximo é assim: qualquer um que esteja precisando de ajuda. E quem está precisando? Esse “precisar” pode ser de todo tipo: no campo afetivo, financeiro, moral, espiritual, físico... E onde se encontra esse próximo? Ele se encontra em qualquer lugar: na rua, em casa, na vizinhança, na igreja, no local de trabalho...

Um “amor genérico” não custa nada, até é bonito, reconhecido e aplaudido. A questão fica mais séria quando este amor tem nome, cor, idade, sexo, lugar...

É claro que sempre procuramos mais uma desculpa e dizemos: “Sim, mas agora os tempos são outros. Numa cidade grande como a nossa não dá para sair por aí socorrendo todo mundo. Para isso existem o governo, a prefeitura, as organizações sociais, os amigos da pessoa necessitada, as próprias famílias...” Pode até ser verdade: o mundo moderno exige formas mais organizadas de caridade e não pode depender apenas do socorro individual.

Porém, na maioria das vezes, dizemos que não é hora de socorro individual e não fazemos nenhum outro. O problema é do governo, das instituições sociais? E como colaboramos com essas instituições? Dizemos que temos que “ensinar a pescar em vez de dar o peixe”. E quando vão começar as nossas aulas de ensinar a técnica da pesca? Às vezes, até é necessário dar o peixe para que a pessoa tenha forças para aprender a pescar.

O poeta Mário Quintana no livro “Caderno H” faz uma observação que explica a imensa solidão do ser humano: “O pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada com isso”.

Ao contar a parábola do bom samaritano, Jesus está dizendo que todo mundo tem a ver com isso, sim.

São Paulo nos diz hoje em sua Carta aos Colossenses que em Jesus o mundo se reconcilia com Deus. Isso não aconteceu sem sacrifício. Jesus assumiu até a tortura da cruz. “Por seu intermédio reconciliar consigo todas as criaturas, por intermédio daquele que, ao preço do próprio sangue na cruz, restabeleceu a paz a tudo quanto existe na terra e nos céus” (Col 1,20). Cristo se faz “próximo”, se faz “samaritano” de nós todos e se move de compaixão por nós. Todos nós estávamos doentes, pior que o homem assaltado, e não teríamos remédio, se não fosse o Bom Samaritano debruçar-se sobre nós e curar-nos com seu próprio Sangue. Ele fez tudo por nós e pagou com a própria vida, dando-nos assim a saúde e a vida eterna.

Mas falta completar muita coisa nessa reconciliação que Jesus tornou possível. Um mundo reconciliado é um mundo onde todos se importam com todos. O mundo não está reconciliado com Deus enquanto houver sofrimento humano e, principalmente,indiferença diante desse sofrimento.

Dizia S. Vicente de Paulo, “É preciso amar o próximo com o suor da fronte e o cansaço dos braços”.

É certo, não podemos resolver todos os problemas. Começamos a reflexão dizendo que Deus não pede o que não podemos dar. Ele também não quer ninguém neurótico com complexo de culpa. Mas precisamos sempre nos perguntar: não haveria algo mais que eu poderia fazer? Estou sendo “próximo”, até onde posso ser próximo?

 

Frei Gunther Max Walzer