Homilia - 29/09/2019 - XXVI Domingo do Tempo Comum

Comemoramos, no dia de hoje, o “Dia da Bíblia”. O salmista diz: "Lâmpada para os meus pés é a tua Palavra, e luz para o meu caminho" (Sl 119). Por quê deve ser essa a atitude de todos os cristãos diante da Bíblia? Porque, através da Bíblia, Deus se revela á humanidade e continua se revelando aos homens do século XXI.

Ainda hoje, por vezes, se ouvem críticas porque a Igreja fala em política, justiça social e, ultimamente, em ecologia e problemas ambientais, sobretudo nas celebrações. Muitos afirmam que esses temas não se discutem, muito menos na igreja onde só valem assuntos “espirituais”...

Muitas vezes, nas igrejas, nós temos a ideia de que os que defendem o meio ambiente são pessoas que prestam culto à natureza ou que fazem isso porque participam de movimentos esotéricos. É claro que isso pode acontecer. Mas a defesa do meio ambiente para nós, cristãos, não é uma questão política, ou utilitária; é uma ordenança divina.

A Bíblia nos apresenta várias passagens nas quais encontramos Deus se reportando à questão do cuidado com a natureza. Uma delas está em Gênesis 2,15: “Tomou, pois, o Senhor Deus ao homem e o colocou no Jardim do Éden para o cultivar e guardar”.

Guardar, no sentido de cuidado, de zelo. Por que cultivar? Porque a terra era e permanece sendo algo como um jardim abundante, com toda espécie de animais, de frutos...

Recentemente, o Papa Francisco escreveu a encíclica “Laudato si”. A ´Laudato si’ é uma encíclica ecológica? Verde? Ou uma encíclica social? É uma encíclica social, recordou o Papa Francisco, porque cuidar do meio ambiente significa cuidar do homem, da sua dignidade, do seu destino.

Desde a sua primeira homilia, no dia 19 de março de 2013, o Papa Francisco dissera: “Guardemos Cristo na nossa vida, para guardar os outros, para guardar a criação!... A vocação de guardião (…) é ter respeito por toda a criatura de Deus e pelo ambiente onde vivemos. É guardar as pessoas, cuidar carinhosamente de todas elas e cada uma, especialmente das crianças, dos idosos, daqueles que são mais frágeis e que muitas vezes estão na periferia do nosso coração. (…) Fundamentalmente tudo está confiado à guarda do homem, e é uma responsabilidade que nos diz respeito a todos. Sejam guardiões dos dons de Deus!”

Assim a mudança do clima pode ser uma advertência de que não estamos cuidando bem do nosso “Jardim” que Deus nos deu para cuidar. Faço estas observações em vista da festa de São Francisco celebrado como “Padroeiro da Ecologia”.

Como podemos transformar a Bíblia em luz para ler os acontecimentos? As leituras da liturgia nos oferecem alguns elementos para nossa reflexão.

A liturgia de hoje nos brinda, novamente, com um texto de Amós.  “Ai daqueles que vivem comodamente em Sião, e daqueles que vivem tranquilos no monte da Samaria...; deitados em leitos de marfim, estendidos em sofás, comem os cordeiros do rebanho,... bebem o vinho em grandes copos, perfumam-se com óleos preciosos, sem se compadecerem da ruína de José” (Amós 6,1.4-7).

A crítica de Amós não é contra os ricos e nem contra a prosperidade, mas contra o comportamento de quem poderia partilhar, mas se mostra indiferente, como explicado na parábola de Jesus.

No Evangelho, Jesus conta a parábola do homem rico e do pobre Lázaro. Podemos perguntar: Deus condena os ricos? Jesus não condena o rico, na sua parábola, apenas descreve um comportamento não condizente com o modo divino, porque o rico não olha para o pobre, é incapaz de partilhar seus bens para matar a fome do pobre.

Muitas pessoas têm a impressão de que a Igreja condena os ricos e que Deus não ama os ricos. O que precisamos observar que Deus tem um olhar preferencial pelo pobre, porque ele tem uma vida de sofrimentos e, muitas vezes, sem alguma dignidade. A Igreja procura ter o olhar divino para com o pobre.

A parábola não é só uma alerta, mas é também um convite à mudança. Aos que tudo tem, Deus convida a humildade e não querer apenas para si. Aos pobres convida a paciência e a confiança na providência divina que tudo vê e fará sua justiça. “O Senhor é fiel para sempre, faz justiça aos que são oprimidos”, nos revela o salmo 145.  Na multiplicação dos pães Jesus disse aos discípulos: “Dai-lhes vós mesmos de comer” (Lc 9,13). Não se trata de dar restos, mas colocar o povo em condições de se recuperar e assumir sua vida nas mãos.

Daí que, na segunda leitura, Paulo estimula Timóteo: “Tu, que és um homem de Deus, foge das coisas perversas, procura a justiça, a piedade, a fé, o amor, a firmeza, a mansidão. Combate o bom combate da fé, conquista a vida eterna, para qual foste chamado e pela qual fizeste tua nobre profissão de fé diante de muitas testemunhas..” (1Tm 6,11-12). Se a fé não se transformar em uma decisão política e social de mudança, é vazia.

Hoje, como já comentamos no início da Missa, é o “Dia da Bíblia”. No Evangelho de hoje, temos um dado importante para entender o valor da Bíblia para nossa vida. O rico está no inferno e pede a Abraão para enviar Lázaro, que também estava morto, à casa de sua família para preveni-los do inferno, o local do sofrimento. A resposta de Abraão foi que eles têm os profetas e os mandamentos. Isto significa: eles têm a Palavra de Deus e é a ela que devem ouvir. Deus recusa aparições de mortos, espetáculos religiosos que impressionam ou assustam, promessas de milagres e tantos outros artifícios extraordinários... nada disso é preciso para se viver em Deus, basta a simplicidade da Bíblia, a força da Palavra de Deus, para iluminar nossas vidas.

Seria bom se, todos os dias, pudéssemos ter algum contato com a Palavra, especialmente com o Evangelho, e assim nos alimentar, diariamente, com a Palavra de Deus. É bom que o livro da Bíblia tenha um lugar de destaque em nossas casas, mas é mais necessário que tenha um lugar ainda mais destacado em nossos corações. À medida que lemos, estudamos, rezamos e meditamos a Palavra, Deus vai formando nosso coração e indicando-nos o caminho da vida.

 

Frei Gunther Max Walzer