Homilia - 30/07/2017 -XVI Domingo do Tempo Comum

O Evangelho de hoje nos faz refletir sobre diversas buscas e escolhas. O Evangelho até nos lembra das historinhas de nossa infância quando nos fala de um tesouro escondido no campo, de pérolas escondidas, e nos fala também de peixes, um dos alimentos necessários para a sobrevivência.

Vivemos procurando o que é importante para a nossa sobrevivência. É uma grande verdade que sempre vivemos à procura de algo que tem valor e que é importante para a nossa vida. A vida, a cada momento, nos coloca diante de escolhas. Umas são bem simples, outras bastante ariscadas porque delas depende a nossa felicidade e nossa vida toda: a escolha da profissão; a escolha de uma pessoa para um relacionamento íntimo; se posso confiar em alguém ou não.

Em busca da própria felicidade, muitas pessoas investem tudo o que possuem. Muitas pessoas deixaram o Nordeste e partiram, como dizem, em busca de um tesouro de uma vida melhor. Quando a mega-sena acumula, aumentam as filas nas casas lotéricas e todos investem ali na esperança de serem contemplados com um grande tesouro.

Além disso, quantos guardam seus tesouros no Banco, investem nas imobiliárias, em negócios, no câmbio internacional, em joias.

No Evangelho de hoje, Jesus, novamente, fala do Reino de Deus. Jesus se dirigia aos seus ouvintes com palavras simples que todos pudessem entender. Hoje, também, Ele nos fala por meio de breves parábolas, que se referem à vida cotidiana das pessoas daquela época. São duas pequenas obras-primas: as parábolas do tesouro escondido no campo e da pérola de grande valor. Elas nos dizem que a descoberta do Reino de Deus pode acontecer de repente como para o agricultor que arando encontra o tesouro inesperado, ou após uma longa busca, como para o comerciante de pérolas, que, finalmente, encontra a pérola preciosíssima, há muito tempo sonhada. Notemos que o homem não faz um “negócio de risco”: ele não quer comprar o terreno pensando em “talvez” ter bons resultados financeiros, ele sabe que há um tesouro enterrado naquele campo e, por isso, o quer comprar.

Mas, em ambos os casos, o fato principal  é que o tesouro e a pérola valem mais do que todos os outros bens; portanto, o agricultor e o comerciante, quando o encontram, renunciam a tudo para adquiri-lo. Eles não precisam raciocinar, pensar ou refletir: eles percebem, imediatamente, o valor incomparável do que descobriram, e estão dispostos a perder tudo para adquiri-lo.

Assim é o Reino de Deus: quem o encontra não tem dúvidas, sente que é aquilo que estava procurando, esperando, e que responde às suas aspirações mais profundas. E é realmente assim: quem conhece Jesus, quem o encontra pessoalmente, permanece fascinado, atraído por tanta bondade, tanta verdade, tanta beleza, e tudo numa grande humildade e simplicidade. Procurar Jesus, encontrar Jesus: este é o grande tesouro!

Quantas pessoas, quantos santos e santas ao ler o Evangelho, ficaram tão impressionados com Jesus, a ponto de ser converter.  Pensemos em São Francisco de Assis: ele já era um cristão, mas um cristão "light". Quando leu o Evangelho, em um momento decisivo de sua juventude, encontrou Jesus e descobriu o Reino de Deus e então todos os seus sonhos de glória terrena desapareceram.

O Evangelho de Jesus faz você conhecer Jesus verdadeiro, Jesus vivo que transforma a vida. Você pode, efetivamente, mudar o estilo de vida, ou continuar a fazer o que fazia antes, mas você é outra pessoa.

A terceira parábola de Jesus compara o Reino de Deus com uma rede cheia de peixes. Sempre me admiro quando, na oração eucarística da missa, se fala da Igreja “santa e pecadora”. Aí está uma tremenda realidade que cada um sente em si mesmo. Em nós como na comunidade, o mal e o bem estão lado a lado.  Jesus ao falar da rede que é retirada das águas quer nos dizer a mesma coisa: tem peixe bom e imprestável, e ainda aparece uma porção de detritos e algas que para nada servem.

O mundo é assim: há casamentos formidáveis e casamentos desastrosos: filhos excelentes e filhos que dão para chorar; pobres que nada têm e ricos que nem sabem quanto têm. Quantas vezes nos deparamos com a injustiça quando esperávamos a justiça. E, aplicando um provérbio bem conhecido, podemos repetir: “Nem tudo o que cai na rede é peixe!”.

Facilmente, poderíamos interpretar esta parábola de maneira moralista, pensando que as pessoas boas vão para o céu e as más vão para o inferno. A interpretação pode ser outra. Cada um de nós pode ser comparado não a um peixe, mas à rede que tem tudo dentro: coisas boas e coisas ruins.

Jesus conclui as parábolas falando de um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e velhas. Aquele depósito é a vida da gente. A vida de cada um de nós é como um depósito onde conservamos todas as experiências. Sabemos que nem tudo o que fizemos (o que conseguimos pescar) é aproveitável e bom. Nem tudo serve.

Jesus ensina que quando se descobre o Reino de Deus, você acaba encontrando uma pérola de grande valor; um tesouro. Descobre um novo modo de viver que o leva a fazer uma faxina na vida: você joga fora o que é velho e não presta mais, o que não tem mais utilidade, e conserva o que é novo, aquilo que dá sentido à vida.

Se sua vida é um depósito de ressentimentos, raivas, mau-humor... tudo isso é velho, é coisa que precisa ser jogada fora para dar lugar ao tesouro do Reino de Deus, que é bondade, perdão, alegria.

Se em sua vida ainda há inveja, vingança, ainda quer desejar mal aos outros... Isso é velho e precisa ser jogado fora para ter sentimentos de solidariedade, do perdão, da paz.

Deixe seus vícios da bebida e da droga. Isso é velho e precisa ser jogado fora.

Se sua vida estiver direcionada unicamente para ficar rico, a ponto de colocar o dinheiro no lugar de Deus... Isso é velho que precisa ser jogado fora para colocar Deus no centro da vida.

Se você vive para exibir seu corpo e vive em função da beleza do corpo... Isso é velho e precisa dar lugar à beleza interior que não depende de cirurgias plásticas.

Se você se considera o centro do mundo isso é velho, porque está fazendo de você um egoísta; precisa dar lugar à vida fraterna e altruísta.

Tudo isso depende do jeito como se faz a escolha.

Como fazer? Vejamos a primeira leitura, o diálogo entre Deus e Salomão, no qual o rei não pede nem fortuna e nem beleza para si, mas sabedoria e discernimento para distinguir entre o bem e o mal, entre o que irá fazer bem para o coração e o que poderá arruinar a vida.

Sabemos, no entanto, que nem tudo o que conseguimos fazer é bom. Nem tudo serve. Mas, é consolador também que Deus vai valorizar o que de bom conseguimos fazer. E o que não tem serventia? Não nos preocupemos: será destruído. Deus, com certeza, no juízo final vai resgatar o que é bom na nossa vida. A certeza é esta: o bem triunfará.

Frei Gunther Max Walzer