Homilia - 20/08/2017 - Solenidade Assunção de Nossa Senhora

O desânimo está cada vez mais tomando conta de muita gente. Será que este mundo nunca vai melhorar? Quantos atentados terroristas, tiroteios, assaltos... Será que os homens nunca vão aprender que não se implanta um mundo melhor pela violência e pela imposição? Quando acabará esta corrupção que consome a economia do nosso país e o impede de ir para frente? Onde estão as realizações sociais que tanto prometeram? Quando o povo e os pobres, finalmente, terão voz e vez? O que muda quando cantamos com vigor e orgulho o Hino Nacional, se continuamos eternamente “deitados em berço esplêndido”? De que adiantam as belas celebrações e comemorações cheias de palavras bonitas, mas que não comprometem ninguém?  Quantas reflexões já fizemos: Novenas de Natal, Campanha de Fraternidade, grupos de reflexão... Qual o grau de compromisso efetivo que isso trouxe para nós?

A festa da Assunção de Maria, que estamos celebrando hoje, pode dar uma luz, uma esperança, um novo incentivo, diante dessa situação difícil em que nos encontramos.

A festa da Assunção de Nossa Senhora tem um significado singular, pois, celebramos no Brasil os 300 anos do encontro da imagem de Nossa Senhora Aparecida.

Mais um aspecto deve motivar nossa reflexão: Neste domingo, no contexto do mês temático de agosto, considerando as diversas vocações, a Igreja no Brasil reza e reflete sobre a vocação religiosa e a vocação à vida consagrada de homens e mulheres.

Como acontece em toda a Sagrada Escritura, Deus sempre chama — “vocaciona” — alguém não em vista de um privilégio particular ou para receber um prêmio pessoal, mas para prestar um serviço em prol do bem de todo o povo. Assim Maria, a jovem de Nazaré, foi chamada por Deus para uma missão de suma importância no seu projeto de salvação da humanidade: possibilitar a encarnação do Filho de Deus. Maria assumiu essa missão, mesmo sem saber quais seriam as consequências para si desse ato de fé e coragem.

Quando o evangelista Lucas fala de Maria, a mãe de Jesus, ele a apresenta com esse traço de fé. No evangelho de hoje, Lucas põe nos lábios de Isabel esta frase que resume o significado de Maria para a comunidade cristã: “Feliz aquela que acreditou,
porque será cumprido, o que o Senhor lhe prometeu".

Contemplando a trajetória dessa mulher de fé, comprometida com o Filho na realização do projeto do Pai, a Igreja entende que Maria realizou plenamente a sua vocação. É por isso que acreditamos que ela foi levada ao céu “de corpo e alma”, quer dizer, inteiramente acolhida no mistério de Deus, participando da ressurreição do seu Filho. Ela já está ressuscitada no pleno sentido da palavra. É o desfecho de uma vida plenamente voltada para Deus. Maria respondeu incondicionalmente ao Projeto de Deus na sua vida. Participou na luta e no sofrimento do seu Filho e participa agora da sua glória.

Ela já goza da plenitude da vida anunciada e garantida para todos nós por Cristo. De fato, como nos lembra a segunda leitura de hoje, nós também somos chamados a participar da ressurreição de Cristo, a ter acesso à feliz realidade que “Deus preparou para os que o amam”.

No encontro com Isabel, Maria canta o “Magnificat”, o hino de sua salvação. Ela exalta as grandes coisas  que Deus operou nela. Se Maria é o símbolo do povo, ela exalta as grandes coisas que Deus fez a seu povo, não tanto a ela individualmente. O Salvador que nascerá trará a seu povo a salvação, um reino de justiça, de igualdade. “Deporá os poderosos dos seus tronos e elevará os humildes; cumula de bens os famintos e despedirá os ricos de mãos vazias”.

No atual contexto de crise moral e cívica, considerando a imagem simples e humilde de Nossa Senhora Aparecida e, principalmente, aquelas pessoas simples que a encontraram, me faz pensar num ensinamento de Papa Francisco quando diz: “Deus salva a partir da periferia”. Não do centro para a periferia, mas da periferia para o centro, da simplicidade da vida, como é próprio viver de quem vive na periferia, para chegar ao coração da sociedade, e ali provocar uma transformação social e existencial, através de relacionamentos mais fraternos.

Maria aparece, no canto do Magnificat” como a mulher forte, representando o povo, especialmente o povo mais sofrido, que mais sente o peso da maldade dos atos da corrupção.

Neste Domingo, nossa reflexão e oração se dirige para a vocação religiosa e a vocação à vida consagrada de homens e mulheres. Constatamos que existe uma forte queda nas vocações religiosas, especialmente na Europa, berço de tantas Congregações e Ordens religiosas masculinas e femininas. O aumento das vocações, de outra parte, se faz presente nas “periferias do mundo”, com a grande surpresa de vocações nos Continentes asiáticos e africanos, que se revelam como celeiros das vocações.

Faço duas considerações sobre isso.

O Papa Francisco, diz como já mencionei antes, que a Salvação divina não vai do centro para a periferia, mas vem da periferia para o centro. São vocações que acontecem especialmente em jovens de classes mais pobres e simples. Quando a sociedade se torna rica e cria ambições, a espiritualidade diminui e o chamado vocacional torna-se abafado.

Esta minha consideração ilumina-se na reflexão que brota do “Cântico de Maria”: o olhar misericordioso de Deus para com os pobres e os simples. Ou seja, a promoção vocacional se resume a um convite feito pelo testemunho de viver a vida religiosa com o olhar misericordioso de Deus em favor do povo. A vida religiosa não atrai pela estrutura de casas e trabalhos, mas atrai pelo modo como se vive com o povo e no meio do povo; de preferência com o olhar misericordioso de Deus.

Hoje, rezamos para que as vocações religiosas masculinas e femininas aprendam ou reaprendam o olhar o povo com o olhar misericordioso de nosso Deus e com a alegria de quem vive realizado.

Frei Gunther Max Walzer