Homilia - 03/09/2017 - XXII Domingo do Tempo Comum

No domingo passado, os textos da liturgia nos levaram a perguntar: “Quem é Jesus?”. Hoje, podemos perguntar: “Quem é o cristão?”.

O diálogo de Jesus com Pedro esclarece que o cristão caminha com Jesus na estrada da vida, com a conhecida condição do seguimento a Jesus: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e me siga”.

O convite de Jesus está no condicional; ele não obriga ninguém a segui-lo, mas àqueles que desejam segui-lo, propõe duas condições: renunciar-se a si mesmo, quer dizer, renunciar ao projeto de vida fundamentado nos valores do mundo e, tomar a Cruz para assumir seu projeto de vida.

O que é a Cruz?

A Cruz não é sinônimo de sofrimento, de dor, de dolorismos, mas é morrer para as coisas do mundo e ressuscitar para as coisas de Deus. Isso está resumido na frase “quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la”. Quem construir a vida com os valores do mundo acabará perdendo-se nas propostas existências que o mundo oferece: poder, dinheiro, fama... e coisas assim.

Como ouvimos no Evangelho de hoje, até para os discípulos de Jesus não foi fácil entender as palavras de Jesus quando Ele começou a falar do sofrimento e de sua morte: “Eu preciso ir para Jerusalém, e ali os líderes judeus, os chefes dos sacerdotes e os mestres da Lei farão com que eu sofra muito. Eu serei morto e, no terceiro dia, serei ressuscitado”.

Pedro e os outros onze tinham acreditado nele como Messias e Filho de Deus, “começou a explicar que tinha que ir à Jerusalém e sofrer muito..., ser morto e ressuscitar ao terceiro dia" (16, 21).

Pedro até mesmo se sente no dever de reprovar o Mestre, porque não pode atribuir ao Messias um fim tão vergonhoso. Pedro protestou: — para que isso? O senhor faz tantos milagres, fala tão bem... por que então precisa sofrer e, ainda mais, morrer numa cruz?

No jeito de pensar de Pedro, ele está dizendo: vamos fazer como alguns pregadores que falam bonito e prometem milagres e se tornam famosos. Jesus contesta Pedro e pede que ele não possa pensar  como Satanás. Quem pensa em mudar e impedir a realização do projeto divino é Satanás; quem quer usar o poder de Deus para ser famoso e rico, não pensa como Deus, mas como Satanás.

É forte o que diz o Evangelho de hoje. Por isso, Jesus diz a Pedro: “Saia da minha frente, Satanás!”. Esta frase de Jesus a Pedro não está dizendo que Pedro é um Satanás, mas colocando Pedro no seu devido lugar: aquele que segue os passos de Jesus. Jesus coloca Pedro de volta “na linha”, porque não pensa “como Deus, mas como os homens” (v 23) e sem perceber faz a tarefa de Satanás, o tentador.

Sobre este ponto insiste, na liturgia deste domingo, também o apóstolo Paulo, que, escrevendo aos cristãos de Roma, lhes diz: "Não vos conformeis com este mundo - não entreis nos padrões deste mundo -, mas deixai-vos transformar renovando o vossa maneira de pensar, para que possais distinguir o que é da vontade de Deus, isto é, o que é bom, o que lhe agrada, o que é perfeito” (Rm 12,2).

Quem é o cristão? Esta é a proposta de Jesus: Não entrar nos padrões do mundo, não pensar na glória terrena, na fama e no sucesso. Pedro, e todos que deixam de ser discípulos e discípulas por valorizar mais a fama e o sucesso do mundo, são convidados por Jesus a irem atrás dele, que voltem a ser discípulos e discípulas, alguém que caminha atrás do Mestre, acolhendo o projeto do Pai.

- “Se alguém quer ser meu seguidor, esqueça os seus próprios interesses, esteja pronto para morrer como eu vou morrer e me acompanhe.”

Certamente, Jesus não está preocupado com número, com o tanto de pessoas que caminhava com ele. Quando vê que muita gente o segue por causa de milagres, de ensinamentos, ele resolve revelar o que lhe irá acontecer: vai sofrer, ser crucificado, morrer... por isso, para que ninguém pense que seja enganação o que ensina, ele fala abertamente. Quem quiser segui-lo precisa aceitar a Cruz, precisa aceitar a vergonha da Cruz.

Na 1ª leitura, Jeremias é seduzido por Deus. Mas se sente enganado por Deus, se sente até envergonhado quando se torna alvo de chacota, de brincadeiras e de piadas por acolher o projeto divino em sua vida. Por que o profeta não abandona tudo? Por que não desiste de tão ingrata missão. Por que não fica quieto no seu canto, sem responder àquele que o chama? Se já sabe que vai ser agarrado de novo e desonrado mais uma vez, por que vai até ele? Jeremias declara, que mesmo passando por tanta humilhação, vale a pena servir a Deus, vale a pena servi-lo, pois o amor de Deus é uma força irresistível.

É a cruz de Jeremias. É, especialmente hoje, a nossa cruz. Somos alvo de chacotas, de piadas, de agressividades pela nossa fé. Jesus é muito claro: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e me siga”.

Esta palavra de Jesus diz muito a mim e a você; pois, ninguém de nós escapa do caminho da Via Sacra, do caminho da cruz.

Os pais de família carregam sua cruz doando sua vida para ganhar o pão de cada dia, para sustentar a família. Os jovens, desde cedo, carregam a sua cruz diante de um futuro incerto. As mães que se preocupam com os filhos, com suas companhias, às vezes mal escolhidas, noites mal dormidas e angustiantes. Talvez um filho se perdeu no vício da droga ou do álcool. Cruzes que os pais e mães estão carregando.

Ninguém de nós escapa da cruz da ingratidão, das palavras falsas, das difamações, críticas, injustiças no nosso lugar de trabalho, falta de compreensão.

Às vezes, mais pesada do que a cruz que os outros nos colocam nos ombros, é a cruz que está dentro de nós: são as dúvidas, a fome de Deus. É a cruz das tristezas e da solidão. São as doenças, a depressão. Os limites humanos. A falta de visão, de compreensão.

E tomemos cuidado para não colocar uma cruz nos ombros dos outros. Não transformemos a vida de ninguém num calvário. Não façamos do nosso lar um lugar de acusações mútuas. Não façamos de nossa profissão um instrumento de tortura ou opressão. Não crucifiquemos ninguém com nossas palavras ou nossas próprias ingratidões.

Tomemos cuida para não ferir ninguém com nossos gestos e nossas atitudes.

Que nossos beijos e abraços nunca sejam beijos de traição, mas beijos de perdão, de amor sincero e de amizade.

Voltando à pergunta que fiz no início da nossa reflexão:

- Quem é o cristão? A resposta pode ser dada em uma frase bem simples: o cristão verdadeiro é aquele que se faz discípulo e discípula de Jesus. Esse é o verdadeiro cristão. Aquele que faz do Evangelho um modo de viver, aquele que sabe que o Evangelho dá sentido à sua vida e a toda sua existência.

Sobre os cristãos o Papa Francisco disse certa vez: “Na verdade, nós cristãos vivemos no mundo, totalmente inseridos na realidade social e cultural do nosso tempo, e com razão; mas isso traz o risco de que nos tornemos "mundanos", o risco de que "o sal perca o sabor", como diria Jesus (cf. Mt 5,13), ou seja, que o cristão se torne aguado, perca a novidade que lhe vem do Senhor e do Espírito Santo.

É triste encontrar cristãos "aguados", que parecem vinho diluído, e não se sabe se são cristãos ou mundanos, como o vinho diluído que não se sabe se é vinho ou água! É triste isso. É triste encontrar cristãos que não são mais o sal da terra, e sabemos que quando o sal perde o seu sabor, não serve mais para nada. O seu sal perdeu o sabor porque se entregou ao espírito do mundo, ou seja, se tornou mundano.

Portanto,é necessário renovar-se continuamente com a seiva do Evangelho. E como é possível fazer isso na prática? Antes de mais nada, lendo e meditando o Evangelho a cada dia, para que a palavra de Jesus esteja sempre presente na nossa vida (Angelus 31-08-2014).

Finalizando, cristão é quem segue Jesus, acredita e aceita sua proposta de vida. Ser cristão é viver o Evangelho. É praticar a justiça, a fraternidade e o perdão. Seguir Jesus significa viver o amor.

 

Frei Gunther Max Walzer