Homilia - 10/09/2017 - XXIII Domingo do Tempo Comum

Certamente, já ouviram e até nós já falamos: “Errar é humano”. “Errar, todo mundo erra”. “Todos temos o direito de errar”. Estas frases soam sempre bem quando sou eu que cometi um erro e estou querendo me justificar diante de alguém que está me cobrando uma explicação. Quando é um outro que errou, já é um pouco mais difícil eu admitir isso. Muito mais difícil é dizer isso quando o erro do outro me atingiu em cheio.

Como tratar a pessoa que fez alguma coisa que me prejudicou?

Todas as leituras que ouvimos hoje falam da “correção fraterna”. A palavra “correção” incomoda muita gente. Incomoda quem é chamado a praticar a correção a quem errou e, incomoda igualmente, quem é corrigido. Ninguém gosta de ser corrigido, embora muitos gostem de corrigir os outros. Há pessoas que gostam de corrigir e são como sentinelas prontas para sempre corrigir, sem tolerância.

Há, ainda, pessoas que procuram exercer seu “senso crítico” que não é outra coisa do que “fofoca”. Quem de nós nunca sofreu as consequências de uma fofoca, de um julgamento precipitado feito por outros, uma atitude preconceituosa...? Quando isto acontece nos sentimos injustiçados, ofendidos, discriminados.

O termo correção não é bem aceito, atualmente, porque parece que é uma invasão na privacidade do outro. Isso tem até sua dose de verdade. Por isso precisamos ter cuidado para não ser invasor ou imprudente nas palavras.

Sem dúvida, algumas pessoas têm o dever da correção, como é o caso dos pais, como é o caso de quem lidera um grupo de pessoas. Os pais não podem fugir da responsabilidade de corrigir seus filhos e filhas que caminham em estradas que ameaçam a vida, onde se convive com a morte. Os professores não podem isentar-se da responsabilidade de apontar caminhos saudáveis aos seus alunos.

Mas, afinal, o que e correção fraterna? Correção fraterna por quê? Não é cada um o único responsável por si mesmo? Até que ponto vai a nossa responsabilidade para com os irmãos que nos rodeiam?

Na primeira leitura, o profeta Ezequiel parece querer nos responsabilizar pelos erros daqueles a quem não chamamos a atenção. De certa forma, ele tem razão, se considerarmos que, quando não orientamos uma pessoa quanto ao risco que ela corre se fizer uma determinada coisa, essa pessoa pode vir a causar ou a sofrer danos que poderiam ser evitados.

Nossa função comporta responsabilidade e uma certa cumplicidade. Não é possível fazer “vistas grossa” diante de calúnias e injustiças. Há pessoas que optam pelo lado mais fácil: deixam como está para não “queimar os dedos”. Talvez reagimos quando a situação nos atinge diretamente; então a nossa intervenção tem forte cheiro de autodefesa.

Sem dúvida alguma, deve-se denunciar os erros, vigiar e prevenir o outro do perigo de pecar, com atitudes fraternas. Mesmo quando ele não escutar. “Se advertires o ímpio a respeito de sua conduta, para que se arrependa e, se ele não se arrepender, o ímpio morrerá por própria culpa, porém, tu salvarás tua vida" (Ez 33,9). Logo, a corresponsabilidade dos irmãos nos erros uns dos outros é evidente.

Enquanto o profeta considera o outro que deve ser alertado do seu erro, Jesus, no Evangelho de hoje, não se refere a “terceiros”, como se encontrasse alguém caído e devesse ajuda-lo a se levantar, mas sem ter sofrido algum dano por ele. — “Se o seu irmão pecar contra você, vá e mostre-lhe o seu erro”, diz Jesus (Mt 18,15).

Quer dizer que devo estender a mão exatamente àquele que fez algo contra mim, que me prejudicou? É isso mesmo! Jesus não diz pra falarmos da ofensa daquela pessoa para outras pessoas, ou para ficarmos ressentidos com aquela pessoa e guardarmos a mágoa que temos por ela por tempo indeterminado... Vejam que o que Jesus nos pede exige de nós um esforço enorme... Imaginem quantas pessoas já fizeram algo que nos sentimos de alguma forma ofendidos, e qual foi a nossa atitude na maioria das vezes? Ir até ela e conversar em particular? Ou guardamos aquela ofensa em um grande arquivo na nossa memória, com o nome daquela pessoa...

O que Jesus propõe hoje é dar a mão a quem nos deu uma rasteira! Isso é difícil? Sim, mas não para quem for um verdadeiro apaixonado por Deus e seu projeto. Quem ama de verdade supera a vingança pela ofensa sofrida com o gesto de compreensão da limitação do outro e da necessidade que o outro tem de tentar superar a sua própria fraqueza.

E se o outro não quiser se corrigir?

Jesus “estica” o caso, abrangendo as diversas instâncias possíveis para se “ganhar” o irmão.

A primeira coisa é sempre conversar com a pessoa, tentar saber o que está acontecendo com ela, para que tenha agido desta maneira. Um bom diálogo a sós pode resolver muitos problemas e evitar confusão para ambos. É o que Jesus recomenda primeiro. Nessa conversa, é importante mostrar que, não obstante eu estar prejudicado pelo que o outro fez, estou disposto a ajuda-lo a consertar o estrago.

Mas talvez esse irmão não queira ser ajudado por mim. Só então é bom passar o caso para outras pessoas, mas só umas duas ou três, para não criar alarde e prejudicar o irmão. Quem sabe assim ele se anima mais...

Se ainda assim não funcionar, pode-se apelar para a “terceira instância, a Comunidade. Isso não quer dizer revelar em público na Igreja o que o irmão fez a mim. Seria jogá-lo na fogueira e acabar com o conceito dele diante dos demais irmãos. Isso quer dizer que a correção do irmão tem de ser feita com respeito a ele. Não é para expor a sua fraqueza aos demais, não é para ridicularizá-lo diante dos outros, o que é uma grave forma de vingança.

Na segunda leitura, São Paulo indica que o princípio da correção fraterna cristã é o amor. Corrigir o outro, para Paulo, é um ato de caridade para que o outro não se perca e reoriente sua vida.

Na última ceia, despedindo-se dos discípulos, Jesus resumiu desta forma a proposta que veio apresentar aos homens: “Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei” (Jo 15,12). Este não é “mais um mandamento”, mas é “o mandamento” de Jesus. Já é tempo de voltarmos ao essencial. O cristão é aquele que, como Jesus, ama sem cálculo, sem contrapartidas, sem limite, sem medida. Na nossa experiência cristã, só o amor é essencial; todo o resto é secundário.

As nossas comunidades cristãs, a exemplo da primitiva comunidade cristã de Jerusalém, deviam ser comunidades fraternas onde se notam as marcas do amor e do perdão. Os que estão de fora deviam olhar para nós e dizer: “eles são diferentes, porque amam mais do que os outros”. É isso que acontece? Quem olha para as nossas comunidades descobre as marcas do amor, da misericórdia e do perdão ou vê as marcas da insensibilidade, do egoísmo, do confronto, do ciúme, da inveja? Os doentes, os necessitados, os deficientes físicos e mentais, os marginalizados são acolhidos nas nossas comunidades com caridade e amor?

Portanto, a lição que fica para hoje é essa: pensar nas pessoas que nos ofenderam (o que não é difícil...) e analisar, com muita misericórdia, uma forma de se chegar até elas e conversar sobre isso, sem acusações, mas na intenção de abrir os olhos daquela pessoa para algo que talvez ela esteja fazendo sem perceber...

Por fim, Jesus no Evangelho fala da oração. Peçamos a Jesus que mova os corações, e que nossa palavra deixe de ser nossa para ser somente a palavra de Jesus. A solução vem da graça de Deus e não da tática humana. Para converter pessoas não devemos usar habilidades políticas, mas muito amor e carinho.

 

Frei Gunther Max Walzer