Homilia - 01/10/2017 - XXVI Domingo do Tempo Comum

A celebração de hoje nos traz vários questionamentos sérios e desafios enfrentados desde sempre pelas pessoas.

Quem de nós nunca fez julgamentos sobre pessoas, mais tarde percebemos nosso erro. Se alguém faz algo de errado, aí para frente é fácil criar conceito errado da pessoa. Interpretamos tudo que ela faz a partir do que pensamos o que já sabemos sobre ela, assim “carimbamos” pessoas.

Dizemos com facilidade: Fulano é assim. Na verdade, ninguém é sempre, necessariamente, deste ou daquele jeito. Pessoas mudam.

Na primeira leitura, Ezequiel fala da tendência que seu povo (como todos nós) tem de fazer julgamentos definitivos sobre as pessoas. Ele diz que as pessoas fazem até algo pior: querem proibir Deus de levar em conta as mudanças de comportamento; querem que o Senhor fique cego diante das injustiças de que no passado criou boa fama ou condene para sempre quem um dia errou. Chegam até a acusar Deus de ter uma conduta errada! “Não é justo o modo de proceder do Senhor” (Ez 18,25).

Ezequiel diz que Deus não age como o povo pensa. Quem fez coisas boas, mas depois se desviou do caminho da justiça, está mal com Deus. Quem um dia errou pode mudar e passará ser considerado justo.

Com isso o profeta dá dois recados.

O primeiro é um apelo à perseverança: não adianta a pessoa dizer que já fez muita coisa boa, que tem saldo alto na conta do céu.

O segundo é uma mensagem de esperança: sempre é possível mudar, Deus não ficou para sempre de mal com quem anda por caminhos errados.

É sintomática a atitude de quem vive se pondo na posição de juiz. Julga os outros quem se considera sempre certo. Ao dizer “Fulano tem este defeito” estamos dizendo que somos diferentes, melhores. De um modo indireto estamos dizendo: ele não é correto como eu. E assim alimentamos nossa vaidade.

A segunda leitura de hoje fala do perigo dessa vaidade. Recomendando que os cristãos vivam em harmonia e cada uma faça exatamente do que a vaidade sugere: “Nada façais por competição ou vaidade, mas, com humildade, cada um julgue que o outro é mais importante, e não cuide somente do que é seu, mas também do que é do outro” (Fl 2,3-4).

Não se trata de criar complexo de inferioridade ou de não reconhecer o próprio valor. Uma boa dose de autoestima é necessária para a saúde mental e a capacidade de servir. O que Paulo quer evitar é o “me disseram” da fofoca que desmoraliza o outro e alimenta arrogâncias que são nocivas.

O cristão tem um bom motivo para levar a sério a advertência de Paulo. Se alguém podia se sentir superior, esse alguém era Jesus, o próprio Deus encarnado. Mas Jesus fez completamente o oposto: viveu uma vida humilde e não se valeu de sua condição de Filho de Deus para ser tratado com gloriosas homenagens.

Algo muito sério Jesus estava querendo nos dizer com sua vida levada à humilhação extrema, sua morte na cruz: Se nós o queremos seguir Jesus, não podemos ser arrogantes e vaidosos, seria o contrário de tudo que ele ensinou e viveu.

No Evangelho de hoje, Jesus dá seu recado numa parábola bem fácil e direta. Fala de dois filhos: um que disse que não ia trabalhar e foi; outro que disse que ia e não foi. Ficou óbvio quem, realmente, serviu o pai. Fica claríssimo que fazer é mais importante que falar. Cada um de nós talvez tivesse algumas boas histórias sobre gente que diz uma coisa e faz outra. Nós mesmos nem sempre fazemos exatamente aquilo que dizemos. Podemos ser e, frequentemente, somos melhores ou piores do que indicam os nossos discursos.

É bom lembrar para quem Jesus estava falando. A história é contada logo depois de uma polêmica com os sacerdotes sobre a autoridade de que Jesus dava mostra de ter quando ensinava e curava. Os sacerdotes se consideravam meio “donos” da Aliança e da tradição. Classificavam as pessoas como puras ou impuras por motivo de culto, de raça, até de saúde. Achavam-se os “bons filhos” do Pai celeste – e tinham sempre excelentes discursos para se justificar. Eram os eleitos, os que tinham dito “sim” à Aliança em primeiro lugar. Com a história dos dois filhos Jesus sugere que há outros, que não deram esse “sim” de forma tão visível e estão mais próximos de fazer a vontade do Pai.

Para coroar a conversa, Jesus faz uma afirmação que até hoje muita gente na Igreja ouve com um certo mal estar. Ele diz aos que se consideravam santos: “Os cobradores de impostos e as prostitutas estão entrando no Reino de Deus antes de vocês”. Dá para imaginar o escândalo! Publicanos eram considerados traidores da pátria porque cobravam impostos para os invasores romanos. Das prostitutas nem é preciso falar”.

Jesus está falando sério. Não há nenhum deboche ou cinismo nestas palavras. Parece-me que este texto pergunta pelas nossas convicções e atitudes. Afinal, quem sou eu? Sou uma pessoa transparente – autêntica?

Uma pessoa se caracteriza não pelo “sim” que pronuncia, mas pelo “sim” de sua vida.

Os dois filhos da parábola disseram sim, um com os lábios, outro por sua atitude.

Jesus estava falando às autoridades religiosas judaicas, à “elite” espiritual daquele tempo. Penso que eles entenderam logo a parábola.

Contra essa gente, Jesus coloca as pessoas menosprezadas dos publicanos e prostitutas, e Jesus afirma que essas pessoas têm maiores possibilidades de entrar no céu do que os farsantes.

As duas classes de pessoas ainda existem. Os “teóricos” em religião batizam seus filhos, mas não lhes dão formação cristã. Eles se esquecem do mandato do Senhor: batizar e ensinar tudo que ele nos ordenou a observar”. Dizem que são católicos, mas admitem o divórcio e o aborto; gastam fortunas, mas nem enxergam o pobre na sua rua; enfim temos aí gente envernizada de cristianismo.

Mas, deixemos de olhar para os outros, olhemos para nós mesmos.

Será que nós somos transparentes e autênticos? Quais são os nossos vícios, fobias, neuroses, não confessados? Precisamos do auxílio de Deus para nos libertar de quê? Jesus percebe que as prostitutas e os cobradores do seu tempo são o que são. Eles não podiam enganar a ninguém. Não havia uma forma de dissimular que eles realmente eram. E a lição que nos fica é que apenas as pessoas verdadeiras e autênticas é que participarão do Reino de Deus.

E, graças a Deus, há muitas pessoas que procuram ser cristãos autênticos e vivem a sua fé na vida diária. Não são cristãos sem falhas (somos Igreja santa e pecadora), mas que procuram transmitir a seus filhos os verdadeiros valores cristãos: honestidade, justiça, fraternidade, solidariedade, etc. Encontramos muitos jovens que estão à procura de uma vida autêntica, que não se entregam às drogas e têm idealismo na vida.

Sim graças a Deus, também essa gente continua a existir. E essa gente é a esperança da Igreja e da comunidade. Saibamos descobrir que, no meio de um mundo de muita corrupção, existem ainda lírios e rosas, existem ainda água cristalina e pessoas que enfrentam a vida com idealismo.

 

Frei Gunther Max Walzer