Homilia - 22/10/2017 - XXIX Domingo do Tempo Comum

Certamente, já percebemos que nem toda conversa é o que parece ser. Com palavras bonitas e sorriso simpático se disfarça muita intenção escondida. O famoso politico alemão Otto von Bismarck disse, com certa dose de humor: “Nunca se mente tanto quanto antes de uma eleição, durante uma guerra e depois de uma pescaria”.

Vivemos, atualmente, uma das maiores crises de ordem econômica, politica e ética no Brasil. A politica é, geralmente, um território onde todo cuidado é pouco para identificar verdades, meias verdades, mentiras, planos de desmoralização do adversário. Fica-se com a impressão de que vale tudo.

Até se usa o nome de Deus para promover interesses humanos pouco evangélicos. Nem é novidade! Já acontecia no tempo de Jesus. Descobrir na história humana onde está mesmo a mão de Deus pode não ser fácil, mas é tarefa importante para não sermoa desviados do caminho por conversas cheias de  segundas intenções.

Na época bíblica não havia a separação entre o politico e o religioso como hoje, a mão de Deus era vista por trás de tudo. Um exemplo de como as relações podem servir ao desígnio de Deus está na primeira leitura. Ciro, rei da Pérsia, acabou de derrubar o império babilônico. Sendo tolerante em relação aos povos conquistados, permitiu, que os judeus exilados voltassem para a sua terra. As conquistas de Ciro são atribuídas pelo profeta Isaías ao próprio Deus que o “toma pela mão direita” e “vai abrindo todas as portas” diante dele. E vejamos que Ciro era pagão e nunca tinha ouvido falar do Deus de Israel. Sabemos que uma das grandes crises causadas pelo exílio foi a crise de fé, onde os israelitas se perguntavam: Será que os deuses da Babilônia  são mais fortes do que o Deus de Israel?”. A leitura que o profeta Isaías faz da vitória de Ciro servirá para o povo como prova de que Deus “é o único e não há outro”. Este texto mostra como a política serviu para purificar e fortificar  a fé dos exilados.

Voltemos ao evangelho de hoje. Jesus está em Jerusalém, lugar-símbolo da política e da religião de Israel, pois lá se encontravam os dois centros de decisão da vida da nação: o Palácio do rei e o Templo de Deus. Os interlocutores de Jesus são alguns dos fariseus e do partido de Herodes. Logo se percebe a intenção deste grupo. Não estavam interessados na verdade, não tinham real respeito pela sabedoria e pela autoridade de Jesus. Só queriam deixá-lo mal perante o povo. Dizem: “Sabemos que és verdadeiro e que, de fato, ensinas o caminho de Deus. Não te deixas influenciar pela opinião dos outros, pois não julgas um homem pelas aparências”. Muito simpática a conversa! No entanto mentem. Tudo que querem é deixar Jesus num beco sem saída: se ele mandar pagar o imposto, o povo não vai gostar; se disser para não pagar, eles têm um bom pretexto para acusá-lo como subversivo, rebelde.

Jesus logo percebe a falsidade. Alguém pode dizer que era óbvia, que “estava na cara”. É mais fácil perceber isso de longe, depois de conhecer toda a história, sabendo perfeitamente de que lado está cada personagem. Mas, às vezes não é tão fácil quando nos querem enganar com palavras sedutoras no dia a dia. Será que sabemos mesmo identificar os interesses que estão por trás de tudo que vemos na TV, de tudo que os políticos declaram, de tudo que a propaganda quer nos fazer aceitar?

Ser bom é buscar ver o lado melhor das pessoas, não é a mesma coisa que ser ingênuo e acreditar em tudo que se ouve.

A resposta de Jesus desmanchou a trama dos que queriam pegá-lo: ficaram sem argumentar para responder ou tomar alguma atitude contra Jesus. Tal resposta não foi só uma saída esperta para uma provocação perigosa. Há um conteúdo nessa resposta para nós também, que não estamos armando nenhuma armadilha para Jesus. César representa o governo, a força política. Temos obrigações com o governo se quisermos ser bons cidadãos: pagamos impostos, colaboramos com campanhas em benefício da população, respeitamos as leis e as instituições que forem justas... esse é também um jeito de construir um mundo novo, de contribuir para o bem comum. Nenhum país funciona se população não der a César o que é de César.

Deus está acima de César, o próprio governante tem que ser justo, porque ele é também criatura de Deus. A justiça. A caridade, a solidariedade, a compaixão estão no território de Deus e são normas superiores. Leis e decretos podem ser injustos... se for assim cabe lutar contra elas.

O pastor batista Martin Luther King, famoso na sua luta para derrubar leis racistas nos Estados Unidos, dizia que lutava contra tais leis porque tinha um profundo respeito pelo valor da Lei. Por causa desse respeito, não podia admitir que leis injustas continuassem em vigor.

O imposto cobrado deve ser revertido em benefício do bem comum e não desviado para algum “caixa dois”. Jesus condena a transformação do povo em mercadoria que enriquece dominadores e fortalece a dominação tanto interna como externa.

Jesus chama de hipócritas os grupos que o elogiam mas sustentam a injustiça sobre o povo. Ele manda devolver a Deus o que é de Deus – o povo. O nome do amor hoje é a política vivida como solidariedade.

A Deus não temos como pagar, pois tudo a ele pertence. O tributo que podemos pagar a Deus é a entrega de nossa vida, compromisso com o projeto que Jesus nos ensinou, no amor fraterno e na justiça.

No domingo passado, o Papa Francisco anunciou para o próximi ano o Sínodo para a região amazônica. Nossa vida e o mundo é um presente de Deus. Podemos dizer que, atualmente, vivemos perigosamente, continuamente ameaçados pela morte e por catástrofes naturais, por não cuidar da natureza. É assim que compreendemos o "dar a Deus o que é de Deus e dar a César o que é de César". Significa perceber que Deus propõe a vida, indica o caminho para se viver; é isso que pertence a Deus. O caminho de morte, da negação da fraternidade, da cobiça, da corrupção, não pertence ao Reino de Deus, mas ao reino de César. Enquanto não soubermos usar a liberdade que recebemos de Deus a favor da vida, estaremos sendo sempre ameaçados pela morte. Não caiamos, portanto, na armadilha de culpar Deus.

Uma última palavra sobre o “Domingo das Missões”, que celebrado hoje. Um momento especial para recordar que a Igreja é missionária, é enviada a levar o Evangelho e construir o Reino de Deus em todas as partes do mundo. A 2ª leitura ajuda-nos a entender que a missão é um modo de atuar, de testemunhar publicamente a fé, de se esforçar para que a caridade seja reflexo visível do Evangelho anunciado. A missão da Igreja não é algo estático, parado, abstrato, mas a fé cristã é uma atividade que se traduz em obras. A missão da Igreja não é uma atividade de proselitismo, para trazer mais gente para a Igreja, mas é um trabalha em favor do povo. A caridade é tratada por Paulo, na 2ª leitura, como um esforço, uma missão, um trabalho duro que exige coragem e renuncia e, não poucas vezes, sofrimento para promover relações fraternas. Por fim, sempre iluminados pelo ensinamento de Paulo, entendemos que a missão acontece onde existe esperança que, unida à perseverança e à paciência, promovem um tempo novo, formado por homens e mulheres novos, modelados pela sabedoria do Evangelho.

Rezemos, hoje, para que isso se torne realidade em nossos dias, quando o primado de Deus é tantas vezes ofuscado por ídolos propostos pelos meios de comunicação ou pela cultura do entretenimento.

Rezemos pelos missionários e missionárias que trabalham no Brasil e em outras nações da terra.

Frei Gunther Max Walzer