Homilia - 27/05/2018 - Solenidade da Santíssima Trindade

Celebramos, hoje, a festa da Santíssima Trindade. Desde sempre o ser humano está buscando aproximar-se do Infinito e pergunta: quem é e onde está Deus?

O poeta do Salmo Responsorial (Sl 32) contempla a criação e fica extremamente impressionado. Ele chama Deus de artista e, desse modo professa sua fé: crê que Deus é o criador de todas as coisas e que a criação é obra das mãos de Deus, plasmada com mãos de artista.

Deus seria como o autor de um livro que não aparece visivelmente em nenhuma de suas páginas e, no entanto, está presente em cada palavra, cada frase, cada expressão.

Em cada ser podemos constatar a presença de Deus. Quando num grupo ou num país aparece desonestidade, violência, falsidade, o povo diz: “Nossa! Que gente mais sem Deus!”.

No mundo em que vivemos, muita coisa levaria a um comentário desse tipo. Quando as pessoas só pensam em levar sempre mais vantagem, quando um quer dominar o outro, quando ninguém se importa com os mais fracos, as pessoas ficam se perguntando: “Isto lá é coisa de gente de Deus?”.

Ao contrário, se encontramos alguém cheio de generosidade, que colabora sem fazer questão de homenagens, que sabe se comportar como irmão, o povo reconhece: “Esse aí, sim, vê-se que está com Deus!”.

Assim, continua nossa pergunta: Quem é e onde está Deus? Será que há uma definição para Deus? Querer definir “Deus” é fazer de Deus um objeto. É impossível conhecer a Deus com um simples olhar observador ou pesquisador.

Há muitas falsas imagens de Deus, e estas devem morrer em nós, imagens criadas, muitas vezes, pela imaginação infantil, pela ignorância ou pela superstição.

Ter uma falsa ideia de Deus é uma outra maneira de ser ateu. Muitas pessoas negam a Deus; apenas não são capazes de aceitar as falsas imagens de Deus.

Um célebre escritor dizia: “Deus fez o homem à sua imagem e agora muitas pessoas procuram fazer Deus à sua própria imagem. Deus é Deus e nunca poderá ser reduzido à imagem do homem. Podemos, sim, usar a linguagem humana para falar de Deus”.

Como é o Deus dos cristãos? É uno e trino.

Há muita gente que pensa que Deus nos quis confundir ao revelar-se um Deus Trino, uma verdade ilógica, uma aberração matemática, segundo o raciocínio humano, pois 1 nunca será igual a 3.

As leituras desse domingo, da Festa da Santíssima Trindade, nos mostram como Deus se revela, permitindo ao homem contemplar toda a beleza de um Deus Amor.

Para compreender um pouco melhor a visão cristã de Deus vamos seguir o mesmo roteiro dos primeiros cristãos. O que eles viram, experimentaram, entenderam?

Antes de tudo, como todos os judeus, acreditavam que Deus é um só. Como falou o Deuteronômio: “O Senhor é o Deus lá em cima no céu e cá embaixo na terra, e que não há outro além dele” (Dt 4,39).

Mas os cristãos tinham descoberto, na convivência com Jesus, pela sua morte na cruz e ressurreição, que Deus se revelava de tal forma que dele se devia dizer: é o Filho de Deus, ele mesmo é Deus.

Após a ascensão, Jesus se revelou presente de forma nova, através do dom do Espírito. Os primeiros cristãos reconheceram uma nova e distinta presença de Deus.

Assim, os cristãos começaram a reunir os três nomes, como na bela expressão de São Paulo na Carta aos Coríntios: “A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor do Pai e a comunhão do Espírito Santo esteja, convosco” (2Cor 13,13).

O Evangelho de Mateus, cujo texto lemos hoje, dá testemunho desse modo de invocar a Deus na fórmula do Batismo: “Ide e fazei discípulos meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”.

Quando fazemos o sinal da cruz, percebemos a ligação dessas palavras com o nosso batismo. Somos cristãos, porque fomos batizados em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.

Muitas vezes, não estamos totalmente conscientes disso. Fomos batizados quando crianças, sem termos participado dessa decisão.

Às vezes, a nossa formação religiosa não é muito profunda. Paramos numa catequese infantil. Crescemos em muitos aspectos, mas nossa formação religiosa ficou muito superficial. E nem nos preocupamos com isso.

Quando fomos batizados, ficamos marcados, pela força do Espírito Santo, como filhos e filhas do Pai, irmãos e irmãs, seguidores de Jesus Cristo, membros do Corpo de Cristo, que é a Igreja. São Paulo nos diz hoje na Carta aos Romanos: “Recebestes um espírito de filhos adotivos, no qual todos nós clamamos: Abbá, ó Pai! O próprio Espírito se une ao nosso espírito para nos atestar que somos filhos de Deus” (Rm 8,16).

Por que Deus nos revelou que é Trindade? Com certeza não se revelou para criar dificuldades para o nosso cérebro, com um mistério incompreensível, que somos obrigados a aceitar. Se ele nos falou de si e da sua vida, assim o fez porque ele quer que estejamos conscientes do presente que ele nos quer dar: introduzir-nos na sua família. 

O Espírito, o amor que une o Pai com o Filho, é aquele que foi infundido no coração de todos os cristãos no Batismo.

Desde o instante em que recebemos este dom, fazemos parte da família de Deus, da Trindade.

Percebe-se a presença da Trindade nas comunidades?

Em que consiste a diferença de uma comunidade cristã e de  uma comunidade de outra religião? Só na diferença das cerimônias nas igrejas, nos templos, numa sinagoga ou numa mesquita? Na diferença da maneira de orar? Como se pode reconhecer uma família cristã num povoado de pagãos? Como se pode identificar um jovem cristão numa festa? Será que conseguimos mostrar que o nosso Deus é diferente dos outros deuses, que o nosso Deus é Trindade, que o nosso Deus é um Deus Amor, através da nossa comunidade, da nossa família e da nossa pessoa?

De fato, temos muita dificuldade em entender o mistério da Santíssima Trindade. Sabem por quê? Porque ainda não conseguimos encarnar, completamente, o amor de Deus.

"Quem me vê, vê o Pai", disse Jesus. Hoje, deveríamos poder dizer: "Quem vê os cristãos, vê o amor de Deus, vê a Deus e seu amor presente entre nós".

 

Frei Gunther Max Walzer