Homilia - 22/07/2018 - XVI Domingo do Tempo Comum

Cada“Jesus viu uma numerosa multidão e teve compaixão, porque eram como ovelhas sem pastor” (Mc 6,34).

Não é necessário olhar para o povo do tempo de Jesus para entender que a mesma cena repete-se hoje, diante de nossos olhos. O desenvolvimento tecnológico cresceu. As conquistas na área da saúde avançaram consideravelmente. O homem, do ponto de vista de bem-estar, conseguiu um status de vida como nunca se alcançou em tempo algum da história da humanidade. Uma realidade que, infelizmente, ainda está reservada a uns poucos, que usufruem desse bem estar social. No tempo de Jesus, estes o procuravam somente por curiosidade. Os pobres o procuravam por necessidade: necessidade de vida.

A cena do Evangelho pode ser visualizada hoje em todos os detalhes. Um povo com fome é visto em nossas ruas; é filmado para ser visto em nossos cinemas e televisões; é fotografado e estampado em nossos jornais e revistas.

Vemos esse povo que anda angustiado, apressado pelas ruas de nossa cidade, vemos as dezenas de moradores de rua dormindo nas calçadas de nossas ruas, vemos as moradias precárias em que mora a maioria das pessoas, vemos o atendimento insuficiente dos doentes nos hospitais, vemos os idosos abandonados nos asilos, vemos as crianças com fome e sem ensino, vemos a juventude sem instrução e orientação...

Jesus viu este povo numa situação desesperadora como um rebanho sem pastor: “Jesus viu uma numerosa multidão e teve compaixão, porque eram como ovelhas sem pastor“ (Mc 9,36).

Jesus está dizendo isso, porque aqueles que foram designados para serem pastores, isolaram-se em seus templos, interessados apenas em seus lucros. Abandonaram o rebanho para se dedicarem unicamente ao seu próprio bem-estar. A maioria de seus líderes políticos buscando seus interesses pessoais e não estão nem aí para a causa do povo. Não só não promovem a justiça, como praticam a injustiça e estão contaminados pela corrupção. E, ainda, fazem tudo isso acobertados pela Lei.

Jesus vê essa situação do povo e tem compaixão.

A profecia de Jeremias, como ouvimos na primeira leitura, é dura com os líderes religiosos e políticos do povo de seu tempo e continua com a mesma dureza com os líderes religiosos e políticos, em nossos dias. “Ai dos pastores que deixam perder-se e dispersar-se o rebanho de minha pastagem, diz o Senhor!... Vós dispersastes o meu rebanho, e o afugentastes e não cuidastes dele; eis que irei verificar isso entre vós e castigar a malícia de vossas ações”  (Jr 23,1-6)!

Quem são os pastores? Para a Bíblia, pastores são todos os responsáveis pelo cuidado do povo: sacerdotes, reis, governadores, profetas... No nosso tempo, entram os políticos, os bispos, os padres... gente que está diante do povo para conduzir o povo. O mau pastor, portanto, é aquele que se descuida da condução do povo para pensar só em si. O mau pastor é o corrupto que rouba a vida do povo porque se corrompe com a idolatria do poder. O mau pastor é aquele que tira a saúde do povo, que tira a educação das crianças e dos jovens, que maltrata, pela negligência, os doentes e os idosos, que festeja e ri com o dinheiro da propina e da corrupção. O mau pastor, em uma palavra, é um ladrão da vida do povo.  E, ainda mais: Um governo que suga o seu povo é um governo provocador de violências.

Tudo contrário ao Evangelho.

Paulo, na 2ª leitura, propõe a aproximação a Jesus Cristo, a aproximação ao Evangelho, para se deixar iluminar pelo Evangelho no modo de liderar e conduzir o povo.

“O Senhor é o pastor que me conduz” (Salmo Responsorial).

“Jesus viu uma numerosa multidão e teve compaixão, porque eram como ovelhas sem pastor”. Jesus está sentindo compaixão, Jesus tem pena do povo. “Começou, pois, a ensinar-lhes muitas coisas”.

Em que consiste a compaixão, descrita no Evangelho? Consiste em ensinar. O Evangelho diz que Jesus teve compaixão e começou a ensinar. Não se trata de um ensinamento religioso doutrinal, de fazer uma catequese, uma pregação, por exemplo, mas ensinar para ajudar o povo a perceber o que é essencial e o que é secundário na vida a partir da ótica divina. É neste aspecto que o povo encontra em Jesus um ensinamento novo, voltado para o essencial da vida, oferecendo uma esperança para o futuro de quem o escuta e o acolhe pelo seu ensinamento. Na prática, Jesus ensina para curar as feridas. Dar o pão é importantíssimo, mas ensinar a viver para que o pão não falte também é importantíssimo.

É muito bonito a Bíblia falar sobre os governantes e líderes do povo como “pastores”. Jesus diz que o Bom pastor conhece suas ovelhas, defende-as contra os lobos ferozes e as leva para pastos verdejantes, dá sua vida por elas. Como seria bonito se nossos governantes tivessem algo desses bons pastores. Sabemos que há alguns que procuram, verdadeiramente o bem do povo, mas muitos procuram seus próprios interesses,

Em breve teremos o “privilégio” de poder escolher nossos governantes. Não podemos desprezar esse direito deixando de votar, ou anular o voto. Mas o povo tem que fazer valer sua voz também depois das eleições. E os governantes não podem deixar de ouvir a voz do povo. O povo é forte quando se reúne e clama em alta voz.

Diante da situação atual, nossa postura deve ser de realismo e de esperança, enxergando o que foi errado e contribuindo para que sejam retomados os caminhos de justiça e de honestidade, como nova esperança. As lições da história podem contribuir para isso.

Jesus nos ensina e diz: “Eu sou o caminho... quem me segue não anda nas trevas...”.

Jesus não nos diz o que vai acontecer amanhã. Suas palavras são a luz que ilumina o caminho e, assim, temos a certeza que não nos vamos perder. Suas palavras são o caminho. Caminho que se chama amor, perdão, luz, amizade, unidade, diálogo, compreensão e compaixão. Se conseguirmos transmitir às crianças e aos jovens não só a ideia de que Jesus nos ama, mas se conseguirmos fazer sentir, também, o calor desse amor e dessa compreensão do Senhor, que ficou “com compaixão por eles, pois estavam como ovelhas sem pastor, creio que os jovens, e nós mesmos recuperaremos a confiança na vida de que precisamos.

Sigamos em frente no caminho que toma a direção do amor a Deus e aos irmãos.

 

Frei Gunther Max Walzer