Homilia - 10/02/2019 - V Domingo do Tempo Comum

Muitas vezes nos vemos diante de certas tarefas e pensamos, será que vou dar conta? E se sair tudo errado? Muitos aí desistem e perdem ótimas oportunidades de crescer, de desenvolver suas capacidades e seus talentos.

Nossas tarefas na vida são chamadas de “vocação”. É um chamado para fazer o que precisa ser feito dentro do projeto de Deus. É chamado de Deus à tarefa dos pais e mães cuidando dos filhos, é vocação à presença amiga dos avós tendo paciência com as crianças, é vocação à tarefa dos motoristas que dirigem com responsabilidade, é vocação dos médicos de cuidar dos enfermos... Reflita qual é sua vocação e pense na sua própria vida (familiar, profissional, social, religiosa...) identificando os chamados de Deus nas tarefas que cada um de nós desempenha para o bem comum.

A primeira leitura nos mostra Isaías descrevendo em termos simbólicos a sua vocação. Não é para tomar ao pé da letra as descrições, por exemplo: Deus não tem trono nem usa manto com franja... A força da imagem serve para expressar o sentimento de Isaías. Ele se sente pecador, pequeno, indigno diante da tarefa de ser porta-voz de Deus.

Aí entra a imagem da brasa ardente que purifica os lábios do profeta. É um jeito de dizer que ele só se torna capaz da missão porque Deus mesmo se encarrega de dar força e pureza a suas palavras.

Nós também usamos a palavra, nem sempre para falar, necessariamente, de Deus. Mas é bom que Deus se possa intrometer em nossas conversas mesmo que seu nome não seja mencionado. Deus está no meio de qualquer conversa que consola, que proclama a justiça e a verdade, que reconcilia, que perdoa e constrói na direção dos valores do Reino.

Na segunda leitura vemos outro servidor de Deus, o apóstolo Paulo que precisou sentir a força da graça em sua vida para estar à altura da vocação que o Senhor lhe destinara.

É fácil imaginar que a vocação de Paulo enfrentou um grave problema: nem todos se sentiam à vontade com alguém que tinha sido um notável perseguidor dos cristãos. O próprio Paulo deveria se sentir desconfortável em relação a suas atitudes passadas.
Mas ele conseguiu seguir o chamado com uma força vibrante. Foi o grande responsável pela expansão do cristianismo entre os pagãos.

Paulo reconhece que ele não era digno de sua vocação e missão. Mas ele mesmo responde: “Pela graça de Deus, sou o que sou, e a graça que ele me deu não tem sido inútil. Ao contrário, tenho trabalhado mais do que todos eles; não eu, mas a graça de Deus que está comigo (1Cor 10,15).

A graça de Deus não violenta ninguém: é uma oferta da bondade do Senhor, em vista das necessidades daquele chamado e da missão a serviço dos irmãos. Feita a oferta, é preciso que a pessoa a acolha e se entregue. Foi o que Paulo e Isaías fizeram.

No evangelho encontramos um chamado um tanto estranho: Jesus chama Pedro para ser pescador de gente.

Naquela manhã, se dependesse de Pedro, ele, certamente, não teria lançado suas redes nas águas do lago Tiberíades. A experiência da noite foi decepcionante e ingrata. Nada de peixe, nada e nada. Por quê recomeçar outra vez?

Ao ler esta passagem do Evangelho, penso que muitos de nós já disseram algumas vezes na vida "para que?". Muita gente já não tenta mais nada, porque está desiludida. Já tentaram tantas vezes e não deu certo.

Pedro teve a coragem de confiar na palavra do Mestre e diz: "Em atenção à tua palavra, vou lançar as redes" (Lc 5,5). Mesmo quando algo nos parece ser difícil, devemos depositar a nossa confiança na palavra de Deus. Mesmo quando essa palavra nos manda que façamos algo que aparentemente não tem sentido.

Será que nós sempre confiamos na Palavra de Deus? Não nos sentimos, por vezes, inclinados a confiar mais em nossas próprias forças ou em outras forças nas quais se apoia a maioria das pessoas: o dinheiro, o poder, os favores, os privilégios?

E assim chegamos ao tema central deste trecho. O motivo principal pelo qual Lucas nos conta este episódio é de explicar que os discípulos de Jesus têm uma missão a cumprir: são chamados a serem "pescadores de homens".

Ao ver que a pesca com Jesus tem resultados inesperados, Pedro se dá conta de que está diante de alguém muito especial. Sente-se incapaz de ser contados entre os amigos de Jesus, “Senhor, afasta-te de mim que sou pecador” ((Lc 5,8).

Jesus lhe diz que não tenha medo, ele garante que vai conseguir executar a missão.

Como acontece com esses três, Isaías, Paulo e Pedro e tantos outros, Deus tem um chamado para nós. Esse chamado não necessita de visões de anjos ou milagres especiais. Deus chama a quem está atento à realidade e sabe ouvir o clamor da necessidade de tornar a vida melhor e mais humana para todos. Se nos oferecemos ao serviço do Reino, o Senhor do Reino estará conosco. Com ele podemos pescar onde parece que não há peixe, podemos plantar justiça onde outros dizem que não adianta tentar, podemos levar fraternidade onde parece que a competição é a única que funciona.

Jesus manda Pedro “levar o barco para um lugar onde o lago é bem fundo” (Lc 5,4), ir mais longe, sem medo, para pescar melhor.

Quem permanece na rotina da vida ficará ano após ano remoendo as mesmas lamúrias, se queixando de que os outros não colaboram e ninguém assume seus compromissos. A ordem é recomeçar, mas não do mesmo jeito, insistindo no superficial, que está vazio. Trata-se de recomeçar com audácia de ir mais longe, de ver a vida em profundidade, de mergulhar nos problemas humanos concretos, de ousar um novo jeito de ser sinal do fascinante amor de Deus.

Pedro só conseguiu peixe quando reconheceu que seu talento de pescador não era suficiente e lançou as redes em nome de Jesus. Às vezes parece que nosso trabalho evangelizador não dá os resultados esperados porque as redes são lançadas em nome de outros interesses que não são os de Jesus. Podemos lançar redes em nome da vaidade pessoal de alguns, em nome deste ou daquele grupo, podem até fazer concorrência uns com os outros, em vez de juntar as barcas para recolher juntos como fizeram os apóstolos. Aí não é de espantar que os resultados sejam pobres, ou enganosos, com peixes que, de fato, não servem parar resolver a fome de Deus, de caridade, de igualdade, de justiça, nesse nosso mundo tão necessitado.

Não se espera que sejamos perfeitos. Deus conhece nossas fraquezas e está disposto a cobri-las com a graça. Mas se nos desviamos do Reino e pescamos com outros interesses, o Senhor não é mais nosso parceiro.

 

Frei Gunther Max Walzer