Homilia - 17/02/2019 - VI Domingo do Tempo Comum

O mundo do futebol amanheceu mais triste na manhã daquela sexta-feira quando um incêndio, ocorrido nos alojamentos do Centro de Treinamento do Flamengo, no Rio de Janeiro, vitimou dez adolescentes. Famílias enlutadas, esperanças findadas, vidas interrompidas.

O ser humano vive de esperanças. Há até os que ficam ricos manipulando a esperança do povo organizando bingos, loterias etc. É só ver como aumentam as filas quando a Sena fica acumulada! Mas a esperança não se refere só à possibilidade de ficar rico.

Quem se casa tem esperança de que tudo seja como no conto de fadas:... “e viveram felizes para sempre”. Quem se forma tem a esperança de achar um bom emprego, quem tem emprego tem a esperança de fazer uma boa carreira profissional... Enquanto houver esperança, tudo bem! Quando a esperança acaba, a vida ganha gosto de tragédia e a porta se abre para muitas desgraças. Quem lida com a violência das ruas sabe o perigo que é um menino que acha que “não tem mais nada a perder”.

Na primeira leitura, Jeremias contrapõe a confiança nos homens e a confiança em Deus. Jeremias usa a força do contraste, diz: “Maldito o homem que confia no homem e faz consistir sua força na carne humana, enquanto o seu coração se afasta do Senhor” (Jr 15,5). Não é que o profeta esteja recomendando a total falta de confiança no próximo. Na vida organizada segundo os critérios do Reino de Deus, a confiança mutua será fonte de tranquilidade e alegria. Jeremias está apenas querendo dizer que Deus é muito mais confiável do que os homens.

Na segunda leitura, Paulo insiste no centro da fé cristã: a ressurreição de Cristo como garantia da nossa ressurreição. Olhando o conteúdo da carta aos Coríntios podemos ver que havia pregações contrárias à ressurreição na comunidade. Paulo sempre teve muita consideração com a cultura pagã. Foi ele que mais lutou para que os pagãos pudessem entrar no cristianismo sem terem que adotar os costumes judeus que faziam parte da própria religião de Jesus.

Paulo afirma que em Jesus se antecipa o que Deus quer dar a todos nós. E qual é o caminho para ter a eterna felicidade?

No Evangelho de hoje, Jesus nos mostra o caminho da felicidade, nos entrega o passaporte para a felicidade. Jesus nos diz quem são os “bem-aventurados”, quem são os “felizes”. Mas diz, também, quem são os “infelizes”, os “malditos”.

Se Jesus em vez de “ai de vós, ricos”, dissesse “bem-aventurados vós, os ricos”, “bem-aventurados vós, que agora tendes fartura”, “vós, que agora rides”, “vós, que estão recebendo homenagens e diplomas de reconhecimento”. Se Jesus tivesse falado assim, certamente, nos agradaria mais.

Afinal, quem não gostaria de ter uma gorda conta no banco? Quem de nós não gostaria de ter uma mesa farta com lagostas e camarão graúdo? Quem de nós não gostaria de viver alegre e feliz? E quem de nós não gostaria de receber, pelo menos de vez em quando, uma homenagenzinha ou um diploma de reconhecimento?

No nosso entender e da maioria das pessoas, a felicidade está ligada à riqueza, a boas refeições, a carros e casas, ao divertimento e a honrarias.

Mas, Jesus diz exatamente o contrário. Parece que ele inverte todas as regras do bom senso. Jesus chama de bem-aventurado, de feliz alguém que, aos nossos olhos, é um miserável e alguém que, aos nossos olhos, é feliz, Jesus chama de coitado e miserável.

Para conseguir a felicidade será então necessário tornar-se miserável? Como é que devemos entender estas palavras de Jesus, que parece ser o discurso mais importante de toda a sua pregação?

Quando Jesus fala em pobreza, fome e tristeza, ele não se refere, em primeiro lugar, a uma situação de miséria e pobreza. Jesus não quer inverter a ordem social e colocar tudo de cabeça para baixo e os pés para cima. Ser pobre para Jesus não depende do tamanho de sua conta bancária.

Para entender o sentido desta bem-aventurança é preciso lembrar aquilo que ouvimos no Evangelho do domingo passado, quando Lucas nos conta a pesca milagrosa e a vocação dos discípulos e, depois, a conclusão do episódio que diz: “Eles deixaram tudo e o seguiram” (Lc 5,11).

Aí está a característica dos discípulos: eles tiveram a coragem de abandonar tudo para seguir o Mestre. Os discípulos que escolheram a pobreza são felizes porque, tendo o coração desapegado do dinheiro, conseguem colaborar com o projeto de Deus, que é construir um Reino novo de fraternidade e amor. Os ricos são incapazes de aceitar o convite para o banquete do céu, porque já estão se banqueteando neste mundo.

E quem é pobre? Pobre diante de Deus é aquele que se sente pequeno e humilde diante de Deus.

Quem é faminto? Faminto para Deus é quem não se satisfaz com as coisas deste mundo e procura um sentido mais profundo para a sua vida. Saciado é quem não se pergunta mais pelo sentido de sua vida, quem é auto-suficiente. .

Quem é triste? Triste é quem não fecha os olhos diante da miséria humana, diante do sofrimento e da dor. Quem chora com os que choram. Os que agora riem são os que fecham olhos e ouvidos diante dos que sofrem, são os que ignoram a miséria dos outros para aproveitar bastante a vida, para se divertir bastante no carnaval e para poderem passar com tranquilidade as férias na praia.

Os que escolhem acumular bens materiais, satisfazer seus caprichos enquanto outros passam fome, os que não se interessam pelos que sofrem, estão condenados. Não são odiados ou castigados por Deus, mas são malditos porque fizeram a escolha errada, porque se colocaram numa situação desastrada. Colocaram-se numa situação que impede a aceitação da riqueza que é oferecida por Deus.

O projeto de Jesus convoca a cada um de nós:

a partilhar o que possuímos;

a apoiar uns aos outros nas dificuldades;

a buscar parceria com as pessoas que querem trabalhar pela justiça, pela paz, pela fraternidade.

Hoje, Jesus nos pergunta: como está a nossa vida cristã comparando-a com as bem-aventuranças?

Será que podemos nos incluir no número daqueles que Jesus chamou de “bem-aventurados”, de “felizes”?

Será que Jesus nos pode entregar o “passaporte da felicidade”?

 

Frei Gunther Max Walzer