Homilia - 10/03/2019 - I Domingo da Quaresma

Iniciamos, na quarta-feira passada, o tempo da Quaresma. A palavra Quaresma quer dizer quarenta dias. É um tempo de quarenta dias de reflexão e de penitência a que somos convidados para que sejamos dignos de comemorar a nossa salvação que nos veio pela morte de Jesus Cristo na cruz e, para que sejamos dignos de participar da ressurreição de Cristo e da nossa própria ressurreição.

A Quaresma é um tempo onde buscamos o silêncio para nos encontrar com Deus e nos encontrar conosco mesmos analisando o nosso modo de viver e, assim, possamos ser discípulos e discípulas fieis do Senhor.

A Quaresma é o tempo de conversão para que nossas responsabilidades na construção do Reino sejam assumidas com sempre maior empenho.

Um destes empenhos vem da Campanha da Fraternidade, que neste ano de 2019 com o tema “Fraternidade e Políticas Públicas”.

A Igreja no Brasil quer estimular nos cristãos uma participação mais ativa na discussão, elaboração e execução de políticas públicas.

O tema central do evangelho é a tentação. Tentações não faltam em nossa vida, e são bem sedutoras. “E não nos deixeis cair na tentação”, assim rezamos na oração do “Pai Nosso”. Caímos em tentações porque elas aparecem como algo bom, atraente. É assim, por exemplo, com a droga. Se ela não provocasse, pelo menos, no início, uma sensação de prazer, ou talvez de alívio, ninguém se tornaria dependente.

O episódio das tentações de Jesus narrado no evangelho abre muito bem a nossa reflexão da Quaresma quando analisamos a nossa vida.. Jesus vai ter que vencer as tentações, para que não se desvie da tarefa que o Pai lhe deu.

Jesus conheceu a tentação da fome. Jesus estava de jejum há 40 dias, quando o demônio aparece e O tenta dizendo: "Se és tu o filho de Deus, manda que esta pedra se transforme em pão" (Lc 4,3).   Mas Jesus recordou o ensinamento da Torá: “Não se vive só de pão” (Dt,8,3).

Ninguém negará que dar pão aos famintos faz parte do projeto do Reino. No entanto, é bom lembrar que Jesus se queixou do “sucesso” obtido com a multiplicação dos pães, quando viu que, em vez de entender o significado do milagre como apelo à partilha, a multidão queria continuar recebendo comida de graça, sem esforço próprio.

Jesus conheceu a tentação de adorar um falso deus, que promete riqueza, prosperidade e poder. Tudo lhe seria dado se Jesus o adorasse, e usando as Escrituras Jesus diz: "Adorarás ao Senhor teu Deus, e só a Ele prestarás culto" (Dt 6,13).

O apóstolo Paulo, que entendeu bem como era o poder de Jesus, soube dizer: “quando sou fraco, aí é que sou forte”. Trata-se de outro jeito de poder, um poder que se mostra pela fidelidade total ao projeto de Deus.

O maior exemplo disso estamos vendo na pessoa de nosso Papa Bento XVI que entendeu que o papado é um serviço prestado ao Reino de Deus e não pode ser confundido com o poder deste mundo. E disse que depois de ter rezado viu que era necessário ter mais força, mais saúde, mais atenção ao momento da Igreja. Era necessário, com a mesma humildade com que aceitou ser Papa, renunciar a este oficio ministerial.

Jesus conheceu a tentação mais refinada que se pode imaginar, a de manipular o poder de Deus fazendo milagres sensacionais.  "Se és o Filho de Deus, lança-te daqui para baixo" (Lc 4,9).

Deus nos prometeu proteção, quando estivermos com dificuldades, mas não diz que devemos colocar nossas vidas em risco, para tentar o próprio Deus, diferente de termos confiança plena Nele, e responde: "Não tentarás o Senhor teu Deus". O Demônio queria que Jesus confirmasse que realmente era o Filho de Deus, em suas tentações por duas vezes disse "Se és o Filho de Deus..."

Terminado o confronto, feitas as devidas opções, o diabo afastou-se de Jesus.

O que diz a Palavra para nós?

Temos que admitir que vivemos num mundo de muitos e grandes conflitos. Lutamos constantemente contra forças “diabólicas” que desejam nos impedir de dar testemunho do Evangelho de Jesus Cristo, na construção de uma sociedade mais justa e fraterna.

As tentações são muitas ainda hoje, o mundo nos oferece dinheiro, fama, luxuria, prestígio, poder, nos torna pessoas egoístas. Hoje Jesus no ensinou a nos libertarmos da opressão de um mundo materialista e enganador, e lutarmos por uma vida divina, digna, de oração, de conversão e penitência. Pelo batismo já somos fortalecidos na luta contra o mal, mas não esqueçamos da Eucaristia, o alimento do corpo em nossa luta diária, contra todos males que tentam nos afastar do caminho do Pai.

 

Frei Gunther Max Walzer