Homilia - 12/05/2019 - IV Domingo do Páscoa

Quando observo a vida das pessoas percebo que muito valorizamos as coisas, o que as pessoas fazem, o que elas têm e possuem, o que produzem, e esquecemos outras dimensões e facetas da vida: de que as pessoas gostam, o que “curtem”, o que elas amam.

Até em nossas famílias acontece isso, pois cada um acaba correndo atrás dos compromissos, do trabalho, e descuidamos do cultivo do relacionamento afetivo entre as pessoas. Esquecemo-nos de expressar nosso carinho, nosso amor. Sentimos dificuldade de demonstrar que amamos alguém de verdade. Já não sabemos mais o que é sentir-nos importantes para alguém. Temos dificuldade de expressar nosso amor para com as pessoas, colocando barreiras, temos medo que alguém possa interpretar um gesto de carinho de outra maneira, e isso dificulta, também, a nossa vivência do amor de Deus e de nos entregarmos nos braços de Deus e, por isso, sentimos também falta do amor de Deus. Diante do sofrimento ou num momento de escuridão e incertezas, às vezes nos perguntamos: "Será que Deus não está vendo? Será que se esqueceu de mim?".

Verdade é que a religião cristã não é uma religião de consolo, que procura proteger seus membros de todo sofrimento, ajudando-os a esquecer seus problemas e conflitos.

As leituras da liturgia de hoje nos dizem que a vida dos discípulos de Jesus, como a do Mestre, é uma vida atribulada e perseguida.

A 1ª leitura de hoje dos Atos dos Apóstolos (At 13,14.43-52) pode ser vista como um exemplo do que acontece diante da pregação pelos missionários cristãos da palavra de Jesus, que é Palavra de Deus. Vimos Paulo e seu companheiro Barnabé falando numa sinagoga de Antioquia do Jesus ressuscitado. Sabemos que Saulo, perseguidor dos cristãos, se converteu e se tornou o corajoso apóstolo Paulo, anunciador da Boa Nova da Ressurreição. Paulo e Barnabé sofreram as consequências do anúncio corajoso da Ressurreição do Senhor. Foram perseguidos e expulsos daquela região.

Realmente, não só Paulo e Barnabé, mas milhares de outros cristãos foram sendo perseguidos e até massacrados, só porque seguiam e anunciavam o Jesus Ressuscitado.

O apóstolo João, exilado na ilha de Patmos, vê, numa visão, toda essa multidão como uma multidão vitoriosa diante do trono do Cordeiro vitorioso. Ele escuta uma voz dizendo: “Esses são os que vieram de uma grande tribulação. Lavaram e alvejaram as suas roupas no sangue do Cordeiro. Aquele que está sentado no trono os abrigará na sua tenda. Nunca mais terão fome, nem sede, porque o Cordeiro será o seu pastor e os conduzirá às fontes da água da vida. E Deus enxugará as lágrimas de seus olhos” (Ap 7,9-14). Foi o que ouvimos na segunda leitura.

Muito curto é o Evangelho de hoje: Jesus se apresenta como o Bom Pastor. Fala do Bom Pastor, mas não daquele que vai atrás da ovelha perdida, fala-nos do Bom Pastor que é forte e decidido quando afirma: "As minhas ovelhas jamais se perderão e ninguém vai arrancá-las de minha mão” (Jo 10,28). Jesus é este "bom pastor" que não tem medo de lutar contra os bandidos e contra os animais selvagens, a ponto de dar a própria vida pelo rebanho que ele ama.

Somos as ovelhas de Cristo; cada um de nós é muito precioso para Ele. De fato, Jesus, o Bom Pastor, deu sua vida pelas suas ovelhas (Jo 10,15). Ele conhece o íntimo de cada uma de suas ovelhas. “Eu conheço as minhas ovelhas, e as ovelhas me conhecem” (Jo 10,27).

Por isso, podemos ter a certeza de que tudo em nós, cada situação de sofrimento que atravessamos, é conhecida pelo Pastor de nossas vidas. Não é um conhecimento superficial de um registro ocular e mental, mas um conhecimento motivado pelo amor.
A palavra “conhecer” no vocabulário bíblico não se refere a um conhecimento intelectual, não é uma atividade mental, mas é uma relação de intimidade profunda, de amor. Esta palavra é usada inclusivamente para expressar a íntima união do homem e da mulher. A palavra “conhecer” expressa também a união entre o Pai e o Filho na Santíssima Trindade. “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30).

Portanto, quando Jesus fala que conhece as suas ovelhas, quer dizer que ele tem para com elas uma relação de amor profundo.

Quem são essas ovelhas que ele conhece?

Somos nós. Através do Batismo fomos recebidos como membros na comunidade da Igreja. No dia do nosso Batismo, Jesus Cristo tornou-se nosso Pastor. Naquele dia, o Bom Pastor como que sussurrou baixinho no ouvido de cada um de nós, dizendo: “A partir de agora você é meu, você é minha. Nunca vou abrir mão disso, nunca mais. Ninguém vai arrancar você de minha mão. Mesmo que você se afaste do meu rebanho. Mesmo que você prefira, quem sabe, aquele aparente “conforto” do seu mundinho egoísta, eu vou atrás de você. Pois, eu não quero que você se disperse, eu não quero que você perca o rumo. Eu quero que você tenha a vida, e tenha a vida eterna”.

“As minhas ovelhas escutam a minha voz e elas me seguem”.

Uma criança reconhece a voz de sua mãe, à distância, entre muitas outras vozes.

É preciso ouvir a voz de Jesus. Lembremo-nos de Maria, irmã de Lázaro. Quando Jesus estava em Betânia, Maria estava sentada aos pés do Mestre ouvindo a voz dele. Marta a irmã de Maria ouviu de Jesus as palavras de Jesus, que disse: “Marta, tu te preocupas com muitas coisas; Maria escolheu a melhor parte”.

Quando rezamos, não deveríamos mais ouvir do que falar? E quando ouvimos as palavras do Evangelho, não deveríamos ficar bem atentos às palavras do Senhor.

Infelizmente, vivemos num redemoinho de atividades, profissionais e sociais. Temos tantas preocupações que não dá mais para ouvir a voz do Senhor. O audiofone e o celular estão encostados no nosso ouvido o dia inteiro para quebrar o silêncio. Mas é só no silêncio que o Senhor fala.

“As minhas ovelhas escutam a minha voz e elas me seguem”.

A voz de Jesus é sempre um convite para o seguir. Portanto, a voz de Cristo nos compromete. Não será por isso que muitos não querem ouvir a sua voz?

Tenhamos tempo para um momento de silêncio, para no interior de mim mesmo, ouvir a voz que me chama, me orienta, me aconselha, me convida!

Maria guardava as palavras no seu coração, meditando-as.

 

Frei Gunther Max Walzer