Homilia - 19/05/2019 - V Domingo do Páscoa

“Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros” (Jo 13,34).

O evangelho de hoje nos relata o testamento que Jesus deixou antes de se despedir de seus discípulos: o mandamento do amor.

Para muitas pessoas, o amor é uma utopia. Horrorizados assistimos, diariamente, a massacres que acontecem em diferentes partes do nosso mundo; a violência e o aumento do número de mortos pela guerra do tráfico de droga em nossos grandes centros, assaltos, arrastões em restaurantes, e quantas outras notícias desse estilo nos bombardeiam dia a dia.

Como se isso não bastasse, podemos constatar que vivemos num mundo extremamente egoísta, individualista e materialista. Falar em amor parece ser, de fato, uma grande utopia.  Ainda, o amor é cantado em prosa e versos mesmo que muitos não acreditam mais na capacidade humana de dar e receber amor. Verdade é que andamos todos carentes na busca de alguém que nos ama e nos ensina a amar.

A nossa perspectiva cristã mostra o amor não apenas como um sentimento que preenche o vazio da nossa vida. O amor que Jesus nos apresenta é um sacrifício de vida. Amar é ser capaz de dar a vida uns pelos outros, como Jesus o fez. E isso é tão fundamental que ele transformou o Amor em mandamento. Suas últimas palavras são a herança a que nos amemos, como ele mesmo nos amou.

Como podemos perceber, Jesus não deu um conselho, nem uma sugestão. Foi um mandamento mesmo. Ele nos ordena a amarmos uns aos outros.

O que significa para nós “amar”?

Amar uns aos outros nem sempre é dar abraços acompanhados de sorrisos, ou sair e apertar as mãos de todos como o fazem os políticos em época de campanha, ou mesmo aqui na igreja dar a mão ao vizinho do banco e dizer: “A paz esteja contigo!”.

Amar o próximo nunca foi fácil. Este próximo que a toda hora cruza o nosso caminho, que, às vezes, nos incomoda, que ofende, que calunia, que odeia. Será que o próximo é também aquele que assalta que rouba, que estupra, que mata?

Afinal, o que é que quer de nós este Homem de Nazaré? Preferimos observar todos os outros mandamentos, contanto, gostaríamos que ele nos dispensasse deste mandamento de amar o próximo e todo próximo.

Jesus, no Evangelho de hoje, está jogando pesado conosco. Pois além de se tratar de um mandamento, ele está deixando bem claro que o amor entre nós cristãos é algo indispensável para que as demais pessoas percebam que somos seus seguidores.

“Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros. Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13,35).

“Nisto conhecerão que sois meus discípulos”. Imaginem vocês uma comunidade cristã onde há inveja, ciúmes, fofocas, arrogância, falta de humildade, fingimento, discriminação, exclusão?

Isso seria o cúmulo do absurdo! Justamente no lugar onde esperamos que todos sejam o exemplo de autênticos seguidores de Cristo. Cristãos que praticam o amor sincero desinteressado que deveriam amar como Deus nos ama.

Não é pelo crucifixo ou pelo escapulário que alguns carregam no pescoço que nós reconheceremos os discípulos de Cristo, mas pelo amor que eles têm uns pelos outros.

Pela solidariedade fraterna somos reconhecidos como verdadeiros cristãos e, assim, podemos construir uma nova sociedade, a civilização do amor.

No início do cristianismo, a primeira comunidade de Jerusalém deu um testemunho forte do amor e da união. A primeira leitura (Atos) nos mostra os discípulos anunciando a Boa Nova em diversas cidades da Síria. Aí eles conquistam muita gente, fazem novos discípulos, que vão entrando na convivência do amor fraterno. Bem vistos por todos, os cristãos só recebiam elogios pela sua conduta no amor. Isso foi tão forte que, cento e cinquenta anos mais tarde, Tertuliano escreveu sobre os cristãos: “Vejam como eles se amam”.

A segunda leitura (Apocalipse) nos descreve a nova cidade, recriada pelo amor, onde Deus habita com a gente. Nesta cidade reina o amor e por isso não há mais morte, luto, grito, nem dor. “Passou o que havia antes... Eis que faço novas todas as coisas” (Ap 21,4-5). A civilização do amor é a nova sociedade transformada pelo amor, pela solidariedade de Deus conosco e de nós com os outros.

Ninguém ama apenas com palavras. O amor se mostra com gestos concretos. As palavras do Evangelho de hoje são as palavras de despedida de Jesus. Despedir-se de quem a gente ama é muito difícil. O que deixar para eles? Que herança repartir? Antes de falar e dizer aos outros o que devem fazer, Jesus fez e deu um exemplo. O relato do Lava-pés é o mandamento do amor ao próximo praticado.

Jesus fez do amor a todos, sem distinção e até o fim, o distintivo próprio de sua vida e de seus seguidores. O amor é a identidade do cristão.

Cabe a nós examinar nossos atos e nossa consciência. Podemos sinceramente dizer que amamos como Jesus amou? Não fazemos nenhuma distinção ou discriminação entre as pessoas? Consideramos a todos como irmãos? Temos a coragem de lavar os pés de todos?

Que seja assim! Amém!

 

Frei Gunther Max Walzer