Homilia - 09/06/2019 - Pentecostes

Finalmente, chegou o dia tão esperado e, várias vezes, anunciado e prometido por Jesus Cristo! O dia em que o fogo do Espírito Santo, de forma visível e espetacular, desceu sobre as cabeças dos apóstolos. Depois de uma caminhada de cinquenta dias estamos aqui reunidos para celebrarmos a Solenidade de Pentecostes, a vinda do Espírito Santo.

A primeira leitura dos Atos dos Apóstolos nos fala que o dom do Espírito Santo se mostrou no fato que todos ouviram falar das maravilhas de Deus em sua própria língua.

Assim são muito significativos os sinais que indicam a presença do Espírito.

“De repente, veio do céu um barulho como se fosse uma forte ventania” (At 2,2). O vento nos lembra o sopro de Deus, aquele mesmo sopro que nos faz ser gente, que animou Adão.

“Então apareceram línguas como fogo” (At,2,3). O vento e o fogo simbolizam a ação do Espírito de Deus: força, animação, purificação, coragem. O Espírito tira o medo dos discípulos e os transforma em anunciadores corajosos do Senhor Jesus, leva-os a agir, não os deixa parados.

Mas surge também um sinal novo que não havia ainda aparecido na Bíblia: “Todos nós os escutamos anunciarem as maravilhas de Deus em nossa própria língua” (At 2,6).

Isto nos faz lembrar uma narração do Antigo Testamento: a torre de Babel. Os homens queriam fazer uma torre muito alta para ficarem famosos. O orgulho deles era muito grande. Isto não agradou a Deus. Como castigo, Deus confundiu a língua deles de modo que não se entendiam mais e não conseguiram terminar a construção. É uma narração que quer mostrar que o orgulho divide os homens. Ninguém mais consegue entender o outro.

Nosso mundo atual parece, muitas vezes, uma verdadeira “Torre de Babel”. Os contrastes entre grupos e nações são gritantes, e as guerras e violências mostram que ninguém se entende.

A narração de Pentecostes mostra o contrário. Pelo dom do Espírito Santo todos os estrangeiros, cada um em sua língua, entendiam a pregação dos apóstolos. Isto quer dizer que o Espírito quer unir a todos por uma nova linguagem, a linguagem do amor.
A Igreja nascente inaugura uma nova etapa: não é mais restrita ao povo judeu, ela é para todos os povos. O detalhe é importante: os povos não entendem a língua que Pedro fala. Cada um entende do seu jeito próprio. Ninguém é estrangeiro nessa Igreja, todos compreendem e são compreendidos.

Assim nos fala a segunda leitura de hoje sobre a comunidade como Corpo de Cristo: “Como o corpo é um, embora tenha muitos membros, e como todos os membros do corpo, embora sejam muitos, formam um só corpo, assim também acontece com o Cristo” (1Cor,12,12).

São Paulo nos diz que há diferentes dons, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos. Que bom, que Deus não faz clones. Ninguém é cópia de ninguém. Da mesma forma, um dom pode ser diferente do outro, sem ser melhor nem pior. Dons diferentes complementam-se uns aos outros, enriquecem a comunidade.

Mas os “diferentes” precisam se entender, se respeitar, conviver numa alegre aceitação mútua. Não procuremos “converter” os irmãos ao nosso jeito de rezar, de pregar, de trabalhar. Temos que aprender a administrar os diferentes e assim aprendemos a arte da convivência. Essa arte não deve ser aplicada só na Igreja. A família, o local de trabalho, a política, a vizinhança, todos os espaços do encontro humano teriam muito a lucrar com a espiritualidade do diálogo, da valorização do outro, da soma em vez da divisão.

No Evangelho de João ouvimos que Jesus apareceu aos discípulos quando estavam fazendo uma reunião. Tratava-se de uma reunião meio clandestina, a portas fechadas, pois estavam com medo de serem presos e quem sabe, passarem pelo que o Mestre havia passado.

De repente, quem eles veem! Sem a porta se abrir, o próprio Jesus aparece ali no meio deles, saudando a todos, dizendo: “A paz esteja com vocês” (Jo 20,19). Então provou que era ele mesmo, mostrando-lhes as mãos e o lado... E os saudou uma segunda vez: “A paz esteja com vocês”, e ainda acrescentou: “Assim como o Pai me enviou também envio vocês” (Jo 20,21).

O texto do Evangelho de hoje termina com as palavras de Jesus: “Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem não os perdoardes, eles serão retidos” (Jo 20,23).

Essas palavras são o fundamento do sacramento da penitência ou confissão. Jesus não está dando apenas um poder aos discípulos, mas uma responsabilidade: reconciliar as pessoas e o mundo com Deus. Levar a paz e o amor do Ressuscitado a todas as pessoas e todos os lugares.

Não só os sacerdotes, toda a Igreja e comunidade cristã têm essa grande missão: fazer-se presente em todas as situações e realidades para, assim, tornar presente o Ressuscitado e o Reino.

Não se trata, portanto, de poder para determinar se um pecado pode ou não pode ser perdoado. É a responsabilidade da Igreja e de todos nós para que, de fato, o mundo seja reconciliado com Deus.

O Espírito Santo, doado pelo Ressuscitado, recria e renova a humanidade. É nossa a responsabilidade de fazer esse Espírito soprar em todas as realidades, para que toda a humanidade seja recriada e, assim, o pecado seja, definitivamente, tirado do mundo (Jo 1,29).

Os pecados são perdoados à medida que o amor de Jesus vai se espalhando pelo mundo, quando seus discípulos se deixam conduzir pelo Espírito Santo. O que perdoa mesmo é o amor de Jesus; logo, ficam pecados sem perdão quando os discípulos e discípulas de Jesus deixam de amar como ele amou. Em outras palavras, os pecados ficarão retidos quando houver omissão dos discípulos de Jesus.

É na comunidade que o Ressuscitado se manifesta, fazendo-a perder o medo e a insegurança. Somente uma comunidade que tem o Ressuscitado como centro, pode viver plenamente reconciliada, em paz e animada pelo Espírito. São essas as condições para que a alegria do Evangelho seja, de fato, anunciada!

 

Frei Gunther Max Walzer