Homilia - 23/06/2019 - XII Domingo do Tempo Comum

Vivemos num mundo de gente agoniada, estressada, preocupada ou até desesperada. A mídia nos apresenta um mundo cheio de violência, ódio, corrupção. Só ouvimos falar em crise, recessão e mais sacrifícios para o povo. Muitas pessoas sofrem porque lhes falta o necessário, o essencial, têm dívidas, estão desempregadas, doentes. Vivemos todos numa clima de insegurança.

Nessa situação, muitos acham que a única saída é o “salve-se quem puder” como acontece na disputa dos botes salva-vidas num navio que está afundando.

Percebemos que muitos, nesta realidade conflituosa, querem levar vantagem. Vivemos numa situação onde há espaço para competidores, mas não para companheiros, pessoas fraternas e solidárias.

Onde encontramos a saída desta situação?

Na primeira leitura, o profeta Zacarias anuncia a restauração do povo através da ação de Deus. Deus dará ao povo um Espírito que o faz desejar estar sempre em sua presença e suplicar sua força para recuperar a sua própria dignidade diante do Senhor."Derramarei sobre a casa de Davi e sobre os habitantes de Jerusalém um espírito de graça e de oração; eles olharão para mim (Zc 12,10).

Numa sociedade profundamente dividida, Paulo anuncia, na carta aos Gálatas, uma novidade. Todos são iguais, não há graduação, ninguém é superior nem inferior. São Paulo diz: “Vós todos sois filhos de Deus pela fé em Jesus Cristo” (Gl 3,26).

Paulo percebe que a salvação trazida por Jesus é mais do que um contrato onde Deus nos diz: “Façam isso ou aquilo e eu fico com vocês”. Somos salvos porque Deus nos ama de graça e não porque cumprimos regulamentos. Foi por todos, e não por alguns mais sabidos ou mais santos, que Jesus aceitou entregar sua vida.

Paulo diz que desde o dia que abraçamos a fé e colocamos Jesus em nossa vida, não existe mais judeu e grego, homem e mulher. Existe o cristão, o discípulo e discípula de Jesus, aquele que vive de acordo com o Evangelho: “Vós todos que fostes batizados em Cristo vos revestistes de Cristo. O que vale não é mais ser judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todos vós sois um só, em Jesus Cristo” (Gl 3,27-28).

Mas quem é Jesus Cristo?

No Evangelho, Jesus provoca uma profissão de fé.

Jesus fez essa pergunta aos discípulos; a todos os discípulos, também aos discípulos de hoje.

Quem é Jesus Cristo para nós?

Muitas pessoas conservam ainda hoje a concepção do povo da época de Jesus: reconhecem que ele era um grande pregador do amor, da fraternidade, da paz. Admiram seus gestos e atitudes, mas pensam que O Messias será alguém capaz de curar qualquer tipo de doença, nos revelará o segredo da imortalidade.

Quem é Jesus Cristo para nós?

Não é suficiente responder com uma frase decorada do catecismo, mas com a realidade da vida. Qual é a influência de Jesus em nossa vida. Pois, se aceitamos Jesus, haverá consequências imprevisíveis.

Não importa apenas crer em Cristo, é preciso mais, é preciso “ser em Cristo”.

Interessante é que Jesus quando quer convidar alguém a segui-lo não o faz nos momentos em que a multidão o aclama rei, quando multiplica os pães e todos estavam satisfeitos, quando ressuscitou Lázaro, quando fez um milagre e a multidão ficava admirada, Jesus convida a segui-lo quando anuncia a sua paixão e morte e diz: "O Filho do Homem deve sofrer muito, ser rejeitado...E deve ser morto... (Lc 9,22)”.

Aceitamos um Cristo com a cruz? Ele nos diz: "Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo tome sua cruz cada dia, e siga-me” (Lc 9,23).

A escolha de Cristo não é ele entre outros, mas só ele, com absoluta exclusividade! Não é: Cristo e outros, mas só Cristo! Ponto final! Assim fizeram os apóstolos, assim praticaram os santos.

Todos conseguem, eventualmente, manifestar um gesto isolado de generosidade, todos conseguem esquecer a si mesmo por uma hora. Difícil é manter esta disponibilidade “cada dia”, durante toda a vida.

Num mundo com total desvalorização do sobrenatural, poderíamos perguntar: Será que nossas decisões são feitas à luz de Cristo? Nossas amizades têm a aprovação de Cristo? Cristo poderia sentar-se ao nosso lado, assistindo ao mesmo programa deTV?

Ele aprovaria nossas leituras? Ele poderia ouvir nossas conversas quando falamos de outras pessoas? Quantas vezes por dia pensamos nele? E que tipo de Cristo aceitamos? Um Cristo que influencia nossa vida familiar, profissional e social?

O convite de Jesus continua: "Se alguém me quer seguir”:

Será que eu tenho condições de aceitar o convite para seguir Jesus? Será que tenho condições de entrar na estrada do discipulado e seguir Jesus? Como eu dizia, seguir Jesus em busca de triunfo, interessado em trocas de favores, de milagres, de espetáculos... é fácil. Como também é fácil chama-lo de meu Mestre, de meu Senhor em momentos de comoção coletiva de celebrações e de shows religiosos. Agora, as consequências do seguimento, a partir da ótica da cruz, da proposta de viver o serviço fraterno diariamente — de serviços que ficam escondidos — isso já é diferente. A pergunta de Jesus não tem a intenção de conhecer o índice de popularidade do povo e dos discípulos, mas quer chamar atenção para a consequência de reconhecê-lo como "o Cristo de Deus", de reconhecê-lo como Filho de Deus e como nosso Mestre.

E nós que aceitamos o convite de Jesus para segui-lo, o que ganhamos com isso ou até saímos perdendo?

“Quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la e quem perder a sua vida por causa de mim, esse a salvará" Lc 9,24).

Jesus sabe que temos sempre medo de perder. Jesus fala de um jeito diferente de ganhar. Ele fala da vida eterna, desse encontro com Deus onde nenhuma boa obra deixa de ser reconhecida. Mas as recompensas de entregar a vida pela causa do Evangelho não ficam só guardadas para o além. Aqui mesmo, na realidade do nosso dia-a-dia, saber que estamos a serviço do projeto de Deus, tem vantagens: o Senhor da Vida nos garante sua graça. Com ele, nada se perde: mesmo vinde no mundo onde tantos se perdem no caos, nós tendo ou não sucesso, tudo de bom que fazemos está guardado no coração de Deus. Não há cofre mais seguro.

E ele continua perguntando: “Quem sou eu para você?”.

 

Frei Gunther Max Walzer